ReproduçãoMurilo Benício em ‘‘Matadores’’: filme mostra o ‘‘progresso’’ sertanejo e os matadores de aluguelComeçou ontem o Festival de Montreal, no Canadá, com quase 300 filmes espalhados por 10 salas em pontos estratégicos da cidade durante 12 dias. Não é competitivo, pelo menos nos moldes das grandes e tradicionais mostras - Cannes, Veneza, Berlim. Na verdade é uma grande vitrine onde se coloca praticamente tudo o que está se fazendo de novo pelo mundo. Entre as novidades programadas este ano estão algumas brasileiras. ‘‘Os Matadores’’ é uma delas. O filme de Beto Brant começa pelo Canadá a testar além-fronteiras seu potencial de crítica e bilheteria, simultaneamente com o lançamento em capitais brasileiras (filme está cartaz no Cine Ritz, em Curitiba).
Melhor roteiro, melhor montagem e melhor fotografia pelo júri oficial, além de melhor filme segundo o júri da crítica, ‘‘Os Matadores’’ saiu há quase um mês do Festival de Gramado com prêmios merecidos (faltaram outros, afinal repartidos politicamente) e deixou algumas boas e animadoras certezas. A mais evidente é de que o Brasil é grande o bastante para descentralizar idéias, regionalizando argumentos. Até que a história de ‘‘Os Matadores’’ poderia se passar em qualquer grande centro urbano das regiões sul ou sudeste. Mas o charme da trama está justamente na descoberta de um país fronteiriço, na riqueza não lapidada de personagens cuja densidade existencial fica no estreito limite entre vagas noções de ética e o alcance de uma bala calibre 38.
Os profissionais Ambientado na faixa de fronteira entre Brasil (Mato Grosso do Sul) e Paraguai, delimitado por latifúndios e cidades arrombadas pelo progresso sertanejo, com seus bares e hotéis de expectativas, ‘‘Os Matadores’’ conta a história mais ou menos cronológica de pequena parcela da vida de algumas pessoas. Quem se movimenta neste cenário são principalmente matadores de aluguel, assassinos profissionais que fazem a vida como seguranças de fazendeiros poderosos. Empregados ou autônomos, são eles que interessam mais de perto.
Toninho (Murilo Benício), Alfredão (Wolney de Assis), Múcio (Chico Diaz) e Duão (Stênio Garcia) vendem suas armas e almas. São pagos para matar terceiros e eventualmente podem também direcionar suas armas uns contra os outros, dependendo para onde o vento sopra. Faz parte do negócio. Por isso, entre a ‘‘categoria’’ se estabelece uma espécie de ética da profissão, difusa e precária, mas de certa forma imperativa até como forma de autopreservação.
O que precede a bala Durante boa parte do filme, dois desses matadores conversam à noite num bar de beira de estrada. Esperam para matar alguém. Conversam, se lembram de muitas coisas, bebem. Nas recordações, em flashback , o espectador vai se situando em relação à trama, vai descobrindo quem são os dois e o que exatamente fazem ali. Algumas execuções são recordadas pela dupla. Cada uma delas é sempre precedida por uma espécie de solitária liturgia pagã.
É quando, por exemplo, o personagem paraguaio vivido por Chico Diaz aguarda sua futura vítima. Sentado no banco de um ponto de ônibus, ele espera. Ou quando espera a amante Helena (Maria Padilha) num quarto de hotel. São estes, e outros momentos de espera, confessadamente, que fascinaram o diretor Beto Brant em seu primeiro longa-metragem. ‘‘Não me interessava a bala, mas aquilo que precedia a bala’’ - disse ele na entrevista coletiva em Gramado. ‘‘Aos poucos fui percebendo que o barato do filme era a dilatação do tempo, uma coisa que só percebi quando estava filmando’’.
Baseado num conto homônimo de Marçal Aquino, ‘‘Os Matadores’’ é mais um bem-vindo sopro de novidade nesta fase de retomada. Brant, que tem corretíssima folha corrida no curta, fez um filme original e de grande força narrativa. E teve a boa estrela de contar com um time de profissionais - elenco e background técnico - que não se reúne a qualquer momento no Brasil.

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