Dizer que "Bohemian Rhapsody", filme de Brian Singer sobre Freddie Mercury e a banda inglesa Queen, está arrastando multidões aos cinemas é fato recorrente. Mas impressiona ver desde colegas de trabalho até fãs norte-americanos indo às sessões e voltando às lágrimas. Isso acontece porque o filme é o retrato de uma geração cheia de talentos, uma geração que vivia perigosamente, uma geração que pagou um preço alto pela liberdade mesclada à falta de informação, e até de responsabilidade, sobre os riscos de doenças como a Aids, que faziam sombra àquele desbunde que encontra sua síntese na cena do filme em que Mercury dá uma festa vestido de reizinho.

Imagem ilustrativa da imagem Freddie Mercury comove até às lágrimas
| Foto: Marco Jacobsen



Afinal, como não pensar que era rei? O imigrante pobre, magro, dentuço e carismático que ganhou mundo, teve uma história de vida que contraria tudo o que nós - os 'bem comportados' - pretendemos como fórmula de sucesso. Nós, que damos um passo de cada vez, que sonhamos com diploma e futuro, que elegemos uma profissão que dê o máximo de estabilidade num mundo instável, cujo limiar da terceira guerra pode servir até de alento para quem não cumpre o rito de fazer tudo certinho para ser bem sucedido. Ouvi outro dia de um jovem: "o futuro é um bombardeio para cada país, para cada cidade." E fiquei pensando que não conseguimos manter o sonho americano - o 'american way of life' - que nos anos 40/ 50, quando Mercury nasceu, ainda fazia a cabeça dos jovens, mesmo que optassem pelo avesso da fórmula de sucesso dos seus pais.

Gostei muito do filme. Gostei porque gosto de rock que sempre mexeu com minhas pulsões, me levando a bater os pés até levitar se não estiver numa sala de cinema, onde o coração fica aos pulos, mas a etiqueta ainda regula minhas batidas primitivas. Mas fiquei lá, de olho arregalado, às vezes úmido, vendo, por exemplo, a multidão do Rock in Rio que, numa cena real, dá a medida do que foi a trajetória daquela banda operística que, reza a lenda, gravava imitando o canto dos galos.

O filme está longe de se pretender biográfico, mas os críticos sisudos apontam os erros das datas, mesmo sabendo da vertente ficcional feita para impactar pela grandiosidade de um momento da música pop e pelo carisma de Mercury, interpretado por Rami Malek que só achei dentuço demais. Aquela cara de "Mônica em versão masculina" até me assustou nas primeiras cenas. Mas talvez o exagero tenha sido a medida exata para mostrar alguém como Mercury 27 anos após sua morte. E Malek, com ou sem dentes, está perfeito no papel, assim como todo o elenco que interpreta os músicos.

O figurino de Mercury no filme tem um acento de "Priscilla, Rainha do Deserto", com brilhos e lamês. A gente ri, mas se lembra dos bailinhos nos quais as calças boca de sino arrastavam no chão e das jaquetas feitas de tecidos brocados.
O fato é que aos olhos de hoje, nós fomos exagerados e muito bregas. Ainda assim, herdeiros de uma música inesquecível, de uma batida de pés que nos dias de rock se assemelhavam a tambores de guerra soando por causas culturais que chocavam os mais velhos, como os direitos das mulheres e dos gays, passando no funil apertado da moralidade para desaguar num mundo onde não cabia mais tanto preconceito. Claro que pagamos um preço por isso. Uns mais, como Freddie Mercury e Cazuza, outros menos, como os da minha geração que hoje são senhores e senhoras ditos respeitáveis, em profissões relativamente estáveis.

Freddie Mercury foi o imigrante sonhador, o imigrante nascido em Zanzibar (na costa da Tanzânia) e eternamente confundido com um paquistanês na Inglaterra. De sua origem herdou o exotismo, a pulsão, um modo original de fazer as coisas que o transformaram num dos grandes ídolos da música pop.
Seus exageros, seus brocados - depois substituídos pelo visual clean, que lhe ressaltava a musculatura de frente e de costas, em jeans e camisetas apertadas - são o ícone de uma transformação cultural que se fez no embate do rock com outras vertentes musicais e que deu ao Queen aquela frequência melodiosa de hinos inesquecíveis. Tudo valeu a pena, mesmo porque a vida de Freddie Mercury foi curta, mas não foi pequena. Diferenças que a gente deve considerar na comparação dos ídolos arrebatadores e sem juízo com os bem comportados de plantão.

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