DivulgaçãoFiennes/ Van Doren, Jack Berry/ Christopher MacDonald (o animador) e Turturro/ Stempel: sorriso em nome da farsa.

Últimos dias do ano de 1956: a televisão - e não o cinema - dá as cartas naquele momento nos Estados Unidos. Todas as noites das terças-feiras, o jogo proposto pelo programa ‘‘21’’, líder absoluto em audiência e inteiramente construído em cima de fraudes, reúne a América insondável. Toda a população acompanha semanalmente aqueles quiz shows viciados, onde candidatos se submetem a sabatinas de conhecimentos tendo como estímulo fama e fortuna. No momento em que começa ‘‘Quiz Show - A Verdade dos Bastidores’’, estréia de hoje às 20h30, HBO, tudo parece correr bem para o concorrente Herbert Stempel (John Turturro), prestes a ser campeão na competição de perguntas e respostas. Mas o patrocinador (Martin Scorsese) da fatia nobre no horário tem outro planos. Para ele, Stempel é um pouco judeu demais e um pouco desinteressante demais para o sucesso. Logo seu destino é decidido. Ele deve perder, errando uma resposta. Em seu lugar é escalado um alegre, bonitão e inteligente professor universitário, alguém saído do berço esplêndido de uma das mais conceituadas familias de scholar da América. É assim que entra em cena Charles Van Doren (Ralph Fiennes) , alguém com um perfil mais ariano. Logo se tornará a primeira vedete nacional da TV americana, no momento em que uma comissão do Senado se põe a questionar o jogo...
O nascimento de um sistema Para ficar somente na superfície, através de uma leitura mais apressada, o que Robert Redford faz quando ataca a televisão é mera diatribe moralizadora, com os bons e os maus sabiamente dosados, e o recado político reduzido à luta pela honestidade nos jogos televisivos. Mas na verdade - e as águas aqui são mais
profundas - ‘‘Quiz Show’’ não é um filme sobre a televisão, ou contra a televisão. É um valioso filme sobre a América e sobre sua representação. ‘‘Quiz Show’’ não é o relato de uma grande armação, mas o testemunho de um nascimento. O nascimento de um sistema de propaganda que modificaria para sempre a percepção dos norte-americanos num primeiro momento, e em seguida do resto do mundo. Foi a partir do ‘‘21’’ que a televisão tornou-se uma instituição nos Estados Unidos, antes de invadir o resto do planeta.
E daí a força, rara no cinema de hoje, das cenas dramáticas. Nada de bons, nada de maus. Apenas seres que se espreitam, se investigam, que se fascinam mutuamente, e que, sobretudo, se reconhecem uns nos outros no momento mesmo em que estão prestes a se comprometer, às vésperas da perda daquela inocência responsável pelos embalos do sonho americano. É o american way of life em fim de carreira, pouco antes da guerra do Vietnã, do assassinato de Kennedy, de Luther King, de Watergate... Está tudo lá, nos silêncios e na posse do segredo que é a função ultima da transparência televisiva.
Redford, a rigorQuando, em 1980, ele anunciou que também passaria para trás das câmeras, foram muitas as reticências fundadas na preconceituosa suposição de que atores famosos, salvo as exceções de praxe, não possuíam o feeling necessário. Os quatro Oscar para ‘‘Gente como a Gente’’ (inclusive o de melhor filme), e a comovente liturgia humanista em ‘‘Nada é para Sempre’’, de 92, foram a melhor resposta. Em ‘‘Quiz Show’’ ele também não decepcionou , e o resultado não é nunca menos que brilhante. Armado de uma esperteza desconcertante, Redford endereça sua principal inspiração ao trabalho do elenco. Turturro, Fiennes, Rob Morrow, até Martin Scorsese, que volta e meia brinca de ator nos seus ou nos filmes dos outros, tem presença marcante.
Antes de começar a ver ‘‘Quiz Show’’ hoje à noite, é bom lembrar que o cinema americano desacostumou o grande público a assistir filmes onde os diálogos sirvam verdadeiramente para qualquer coisa. Sem efeitos especiais e sem trucagens, a tensão e o suspense têm como base principal as palavras. São elas que, num paradoxo que Redford pretendeu ressaltar, expõem com clareza e objetividade os novos tempos.

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