Cassiano Elek Machado
Enviado a Frankfurt
Agência Folha
A Feira de Livros de Frankfurt recebeu anteontem três vencedores do Nobel de Literatura, cada um em um evento distinto. O primeiro foi o alemão Gunter Grass, premiado pela Academia Sueca há 15 dias. O autor fez uma aparição surpresa nos estandes de seus dois editores alemães e, tomando um copo de vinho sobre um banquinho, na frente de um aglomerado instantâneo de fotógrafos, jogou pimenta em uma briga política que tem ocupado grande espaço na imprensa alemã.
Há cerca de três semanas, o autor de ‘‘O Tambor’’ terminou uma amizade de décadas com o ex-ministro das Finanças alemão e ex-presidente do partido social-democrata Oskar Lafontaine. ‘‘Cale-se, beba seu vinho tinto e busque uma ocupação com sentido’’, disse aos jornais ‘‘Grass’’, em resposta a críticas que Fontaine fizera ao governo Gerhard Schoroeder em seu livro ‘‘O Coração Late à Esquerda’’, lançado em Frankfurt.
Duas horas depois do vinho de Grass, Frankfurt recebeu o Nobel de 1986, o nigeriano Wole Soyinka. Ele veio apenas para apresentar o projeto de uma nova revista da organização Parlamento Internacional de Escritores. ‘‘Auto da F钒 será editada em seis línguas (não em português) e deve servir como ‘‘um foro da expressão dos autores perseguidos’’. O primeiro número estará pronto apenas na Feira de Frankfurt de 2000. Na saída do evento, Soyinka disse à reportagem: ‘‘Não tenho acompanhado muito as coisas por lá, mas me preocupo muito com o Brasil.’’ Mas não soube explicar com o quê.
À noite, foi a vez de José Saramago. Um ano depois de ganhar o Nobel aqui mesmo em Frankfurt, o escritor português era a principal atração de uma sessão de leitura, que teve também a presença dos autores Lídia Jorge e Fernando Campos. Foram inacreditáveis cinco horas e meia de leituras de textos na Biblioteca de Frankfurt, primeiro em português, depois em alemão. Saramago, que leu trecho de ‘‘Conto da Ilha Desconhecida’’, usou sua exposição no final para falar sobre pessimismo. ‘‘Não sou um escritor pessimista, sou um homem pessimista. O que me surpreende é que existam motivos para ser otimista. Eu até teria todos. Tenho saúde, sou casado e feliz, ganhei o Nobel, tenho uma casa, três cães, mas o mundo não é isso. É o ensaio sobre a cegueira’’, disse o autor, que lançou em Frankfurt a edição alemã de ‘‘Todos os Nomes’’.

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