Em ‘‘O Terceiro Homem’’, o personagem de Orson Welles dá uma sábia definição: ‘‘Alguns anos de sangue e morte dos Borgias produziram Michelangelo e a Renascença; o que se criou em 400 anos de paz da Suíça? O relógio-cuco.’’ Pode ser uma coincidência, mas a 50ª Feira do Livro de Frankfurt, que teve a Suíça como país homenageado, foi das mais insossas.
No fim da feira, a xepa não é das mais animadoras: poucos nomes de peso estiveram presentes, houve poucos lançamentos importantes, dois pavilhões ficaram vazios (a área total, de 182 mil metros quadrados, no ano passado, foi para 179 mil neste ano) por falta de interesse de editores e o público caiu de 291.201 visitantes, em 1997, para 272.000. A única nota marcante foi, sem dúvida, o Prêmio Nobel de Literatura para José Saramago.
O que não é muito para uma celebração de meio século. Até mesmo o velho e bom tom político, característico de anos anteriores, foi substituído pelo muchocho dos novos tempos sem utopias. O estande de Angola, ao lado dos do Brasil, ficou com livros à mostra e sem ninguém para receber os interessados. Não adianta reclamar para os literatos. ‘‘Em vez de perguntar para os escritores o que fazer, perguntem-se uns aos outros, pois somos iguais a todo mundo’’, avisou o Nobel Saramago. ‘‘Quanto mais um escritor é conhecido, mais querem que ele se responsabilize pelo mundo, mas ele só é responsável por si mesmo’’, fez coro Martin Walser, o maior escritor alemão da nova geração, que recebeu, em Frankfurt, o Prêmio da Paz, já concedido a Hermann Hesse, Maria Vargas Llosa, Albert Schweitzer e Ernesto Cardenal. Que, aliás, esteve aqui para lançar o seu novo livro, ‘‘Memórias’’.
Cardenal continua de boininha na cabeça e dizendo-se um revolucionário místico. Sua contrapartida mais crítica, o escritor espanhol Jorge Semprún deixou todo mundo à espera de sua participação num debate sobre literatura e política, cancelando sua vinda a Alemanha poucos dias antes do início da feira. Já o não esperado veio: Salman Rushdie deu o ar da graça, de surpresa, na abertura da feira, na terça-feira da semana passada, mas não foi dessa vez, felizmente, que alguém faturou a recompensa da fatwa, a sentença de morte ritual que pesa sobre o escritor. Ele garantiu que isso está para acabar e que só deseja voltar à sua vida normal de romancista, com direito a um novo livro: um diário da clandestinidade.
Entre as personalidades que passaram por Frankfurt estiveram: Ken Follett (que veio mais para tocar jazz - ele é um baixista - com seu grupo, do que para lançar a edição alemã de seu livro); Peter Ustinov, que, alquebrado e mancando, fez piadinhas e cantarolou para os repórteres, tudo para promover ‘‘Monsier Ren钒, sua última criação literária. Patricia Cornwell também esteve na feira, com cara de Camille Paglia dos thrillers. David Baldacci, autor de ‘‘Poder Absoluto’’, era figurinha fácil, interessado em vender seu novo romance.
Sucesso mesmo fizeram: ‘‘Hitler’’ - a biografia e não o verdadeiro, de Ian Kershaw; ‘‘Anne Frank’’, de Melissa Muller, primeiro estudo sobre a garota do diário; e ‘‘Para Sempre Casablanca’’ (será lançado no Brasil, pela Record), de Michael Walsh, uma estrambótica continuação do filme de Bogart, que rendeu um estande com a fachada do bar do Ricks, como no filme.
Curiosidade: na Alemanha, os ‘‘Cinco Escritos Morais’’, de Umberto Eco, viraram ‘‘Quatro Escritos’’, porque os alemães não ousaram publicar o estudo sobre o nazismo.
Discutiu-se, novamente, o destino dos livros diante do crescimento da Internet e dos CD-ROMs, sem se chegar a nenhuma conclusão. Mas vale ressaltar o espaço nobre destinado em Frankfurt à mídia eletrônica e os elogios feitos à qualidade elevada dos novos produtos. Fala-se demais que o livro irá sobreviver ao futuro para ser verdade. Mais certo é a crise geral do mercado que trouxe um aumento pequeno de lançamentos para este ano, de 306 mil, de 1997, para 366 mil. O número pode ser razoável, mas é perceptível que o mercado, agora, só investe em títulos comerciais.
Segundo os editores, é melhor dar US$ 1 milhão para um livro que ainda nem está pronto, mas vai vender, porque é de um criador de best sellers, do que dar oportunidade a novos e brilhantes autores, que podem encalhar nas livrarias. Com isso, a crise geral, já prevista na Feira de Chicago, em maio. Responsável, aliás, pelo lado insosso da sua versão tedesca: o que era para se lançar, já o havia sido nos EUA. Frankfurt está correndo o sério risco de perder para a concorrência americana o tradicional mercado literário.
A língua portuguesa, então, pode comemorar o Nobel de Saramago: houve uma corrida de interessados estrangeiros em seus livros na Caminho Editorial, quase enlouquecendo Zeferino Coelho, o editor do vencedor. De quebra, os compradores passaram a olhar melhor os autores que escrevem em português. ‘‘O Nobel de Saramago foi fundamental, pois trouxe maior visibilidade e interesse geral sobre outros autores portugueses e, quero crer, o mesmo ocorrerá com os brasileiros’’, disse Nelson de Matos, da tradicional Dom Quixote.
Só é preciso ensinar o mundo a falar o nome do Nobel: na TV de Frankfurt, ele foi anunciado pelo apresentador como, ‘‘Rosé Saramago’’. Não foi o único a cometer o deslize. ‘‘O impacto dessa vitória será grande, mas é preciso reconhecer que a nova geração de editores brasileiros já estava vindo, desde há poucos anos, a Frankfurt, não apenas para comprar, mas também para vender seus autores’’, lembra Altair Brasil, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). O País esteve representado por 31 editores, divididos em cinco estandes. ‘‘Estamos já quase formando uma rua de brasileiros aqui’’, observa Brasil.
As compras, no entanto, foram suculentas. A Record leva para casa: ‘‘Serendipites’’ e ‘‘Os Que Crêem os Que não Crêem’’, de Umberto Eco; ‘‘Omertᒒ, de Mario Puzo; uma série de romances policiais de Andre Camilleri; ‘‘Portugal de Eça: um Guia Queirosiano das Cidades Portuguesas’’; ‘‘The Phantom of Manhattan’’, o novo livro de Frederick Forsythe. A editora está negociando a venda de ‘‘Fera de Macabu’’, de Carlos Marchi, e ‘‘O Cachorro e o Louco’’, de Antonio Torres.
A Companhia das Letras recebeu ofertas estrangeiras por ‘‘A Cidade de Deus’’, de Paulo Lins, e os espanhóis estão pensando em editar Patricia Mello. A editora comprou quatro novos títulos, entre esses, o livro de Bill Gates. Sucesso de Ofélia Annunziato: a sua Cozinha Maravilhosa (Melhoramentos) foi vendida aos italianos. Boas novas igualmente para as pequenas editoras: a Callis e a Dorea Books and Art (DBA) conseguiram boas negociações com editoras européias para seus produtos. A Editora 34 recebeu ofertas por ‘‘Tropicalia’’ e ‘‘Shakespeare não Serve de Álibi’’. A Estação Liberdade agradou em cheio aos alemães e ‘‘Julia Mann: uma Vida entre Duas Culturas’’ foi comprada pela Drager Verlag, de Lubeck, a cidade natal dos Mann.
A mesma editora brasileira também está em negociações para vender ‘‘Coivara da Memória’’, de Francisco Dantas, e trará para o País obras sobre o tema do momento: ‘‘The Future of the Book’’, de Geoffrey Numberg, com posfácio de Umberto Eco; e ‘‘A Bomba Informática’’, de Paul Virilio. Detalhes pequenos, mais importantes: foram roubados, em boa quantidade, do estande da Estação Liberdade: ‘‘Cineastas Latino-Americanos’’, de Maria do Rosário Caetano, e ‘‘A Língua de Lampião’’, de Fred Navarro. ‘‘Os americanos dizem que o número de livros afanados durante a feira é um bom indicativo se ele será, ou não, um sucesso’’, conta Angel Bojadsen, da Estação. Um inesperado termômetro de vendas quentes na fria severidade germânica.

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