Frankfurt aplaude Rushdie
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de outubro de 1998
Carlos Haag Enviado Especial Agência Estado 
Mesmo reconhecendo que uma imagem informatizada possa valer por mil palavras, os participantes da 50ª Feira do Livro de Frankfurt ainda prezam muito o poder de fogo das antiquadas letrinhas. A prova viva disso foi a presença-surpresa, terça-feira, na cerimônia de inauguração do evento, do escritor Salman Rushdie, realçando o caráter político da feira literária. Entre outras autoridades, estiveram presentes o presidente alemão, Roman Herzog, e o presidente da Confederação da Suíça, o país homenageado este ano, Flavio Cotti. A feira foi aberta quarta-feira para o público e editores e prossegue até domingo.
A presença de Salman Rushdie provocou um prolongado aplauso da platéia do Congress Center. Estamos acompanhando as declarações dos governantes de Teerã sobre o escritor Salman Rushdie, que está vivendo na sombra da morte por quase dez anos, anunciou Gerhard Kunze, presidente da associação de editores e livreiros alemães. Isso vai ao encontro de nossa decisão de dar grande destaque ao tema do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos na 50ª Feira de Livros de Frankfurt, porque sem essa liberdade não haverá espaço, no futuro, para os livros e para os leitores, afirmou.
O autor de Versos Satânicos iniciou sua fala defendendo a liberdade, em especial a sua. Rushdie está, desde 1988, sob a ameaça da Fatwa, uma pena de morte não-oficial, decretada pelos líderes religiosos do Irã, irados com a blasfêmia de seu livro. Há algumas semanas, Teerã vem sinalizando com a retirada da sentença que pesa sobre a cabeça do escritor. Desde já agradeço a todos os que me ajudaram a sobreviver a esses anos tão terríveis, disse Rushdie.
Não mais precisar esconder-me, levar uma vida normal como escritor: não desejo mais nada além disso, desabafou. Mas a experiência da clandestinidade vai servir como base para um novo livro. Mantive durante todos esses anos um diário de meus pensamentos e angústias, revelou. Será preciso, porém, esperar alguns meses para ter a certeza absoluta de que o perigo passou, completou. Liberdade para alguns, incerteza para outros. Rushdie também protestou contra a impossibilidade da vinda a Frankfurt, para receber o Prêmio Liberdade de Escrever - Liberdade de Publicar, da editora Ayse Nur Sarakolou, cujo passaporte não foi revalidado pelo governo turco.
Ao lado da política, a grande preocupação dos editores são as consequências da globalização no mundo das letras. Precisamos superar as barreiras linguísticas regionais a fim desenvolver maiores mercados, um fator importante por trás da restruturação e da globalização do setor editorial, avisou Roland Ulmer, diretor da Feira de Livros de Frankfurt. Até 1995, as dez maiores editoras estrangeiras nos EUA dominavam um terço do mercado; hoje, essas companhias vêm encampando empresas americanas - como a Ramdon House, agora ligada a um grupo alemão - e já dominam metade do mercado, explicou.
Não à toa, Globalização: Perda da Identidade - A Literatura no Terceiro Milênio é o tema de uma mesa-redonda que ocorre amanhã, com a presença do poeta e ensaísta brasileiro Haroldo de Campos. O tema está no centro das discussões.
A Feira de Frankfurt reúne 6.758 expositores da Alemanha e do resto do mundo, com um total de 366 mil títulos. O Brasil participa com 31 editoras, colocadas no mesmo espaço, ao lado de representantes da Argentina, Chile, Cuba, Itália e Portugal. São poucos estandes, mas expectativas de venda e compra são elevadas entre os editores nacionais, que, em sua maioria, vieram pessoalmente para participar do evento.
Há casos da boa e velha criatividade brasileira. A editora Christina Rehriz, da Paz e Terra, conseguiu a proeza de reunir mais de 16 casas editoras num único estande. Isso permitiu que muitos, antes impossibilitados de vir a Frankfurt, em função dos altos preços, pudessem participar com um espaço bastante razoável, afirma Christina.
No mesmo lugar, estão livros da Martins Fontes, Imago, Record, Editora 34, Global, UNB, ABE, Unesp. O que não deixou de causar um certo embaraço junto aos alemães, que não conseguiam entender que seria impossível batizar o estande com um nome coletivo, conta a editora. Também estão presentes na Feira, a Companhia das Letras (que divide espaço com a Edusp) e, entre outras, a Estação Liberdade.


