São Paulo, 20 (AE) - François-Marie Banier sempre se apresentou apenas como escritor. Pelo menos até 1991, quando inaugurou sua primeira exposição fotográfica, já na forma de retrospectiva, no Centro Georges Pompidou, em Paris. Nessa ocasião, os franceses descobriram que por trás do romancista de sucesso - autor de livros como "Baltazar, Rapaz de Família" (traduzido no Brasil pela Editora Guanabara) - se escondia um fotógrafo extremamente sensível e com longos anos de experiência. De lá para cá, suas fotos alcançaram a fama, ele se tornou correspondente exclusivo do The New Yorker e colecionadores de todo o mundo passaram a se interessar por seu trabalho fotográfico e pictórico.
Este ano, será o público brasileiro que terá a oportunidade de conhecer a obra de Banier de forma integral, vendo não apenas uma centena de imagens de personalidades ou de figuras anônimas, mas um amplo panorama que inclui dezenas de pinturas sobre tela e sobre foto. Nos últimos dias, o artista esteve visitando os mais importantes museus cariocas e paulistanos para definir pessoalmente todos os detalhes das exposições que realizará no Rio e em São Paulo. As mostras devem ocorrer no segundo semestre e têm patrocínio da LOreal.
Antes do Brasil, Banier mostrou seu trabalho em Tóquio, Munique, Roma, Moscou e Stuttgart. Uma mudança radical para quem pretendia que sua obra visual só fosse conhecida depois de sua morte. A exposição realizada no Beaubourg no início da década foi feita quase por acaso, respondendo a um desafio. "Certa vez, um diretor de jornal ao qual eu havia proposto usar cinco retratos extraordinários de mulheres - como Lauren Bacall, Isabelle Adjani e Silvana Mangano - para o lançamento de um romance me olhou como se não soubesse nada de fotografia", conta. Encontro com Dalí - Esse caráter impulsivo de Banier está presente em vários momentos de sua biografia. Graças a seu lado intempestivo, ele decidiu, com apenas 16 anos, entrar no Hotel Maurice, para mostrar seus desenhos a Salvador Dalí. E acabou estabelecendo uma amizade que durou várias décadas com o mestre espanhol. Na época, Banier vendia desenhos na rua para conseguir viver, depois que escapou de sua "família burguesa".
Ele chegou a assinar litografias no lugar de Dalí como brincadeira, "para prestar-lhe um serviço", já que o pintor não aguentava mais autografar pilhas e pilhas de gravuras. E mostra que ainda hoje é capaz de fazer uma assinatura bastante parecida com a do pintor surrealista. "Encontrei Dalí porque precisava de alguém que entendesse o que eu fazia, de alguém com quem pudesse ter um diálogo maravilhoso", explica o artista. Apesar dessa relação intensa, Banier nunca foi um admirador do surrealismo. Na verdade, as imagens e textos que cria sobre as fotografias têm maior relação com o expressionismo abstrato de Pollock.
Essa espontaneidade criativa está presente tanto na forma de Banier fotografar quanto nas pinturas, sobre tela ou fotografia. Ele confessa que muito raramente persegue um modelo na rua. Na maioria das vezes, procura registrar a imagem que capta seu olhar num determinado instante. Ele também não gosta de dirigir o modelo e se vale de equipamentos extremamente simples, raramente utilizando filmes coloridos.
O artista ficou encantado com a receptividade da população brasileira. Ninguém se afastou ou se escondeu da câmera. "Acho que é porque compreenderam que, com a minha máquina, eu reconhecia profundamente sua beleza, fazia-lhes um elogio". História afetiva - Na pintura, sua liberdade é ainda maior. Quando utiliza as fotografias como base, procura revelar a partir das cores, do traçado e dos textos (um elemento bastante comum em seus quadros) as emoções escondidas na composição. Mas nenhum desses elementos está previamente definido.
Ele confessa que quando está diante de uma foto ampliada sente a frustração de não ter podido exprimir sua fantasia. "Mas, quando pinto sobre Johnny Deep ou Isabelle Adjani, revelo uma história afetiva, muito íntima em relação a eles; toda a minha pintura é afetiva, é baseada na emoção", diz.
Uma de suas pinturas sobre foto mais interessantes - que provavelmente virá ao Brasil - é exatamente um auto-retrato, no qual só se vêem os olhos.
Apesar de ter tirado milhares de fotos do mundo do jet set, Banier diz preferir retratar o homem ou a mulher anônimos. E muitas vezes consegue registrá-los em poses tão dignas que parecem mais glamourosos do que os nobres, políticos ou artistas que povoam suas exposições.
Ele também rejeita a idéia de que leva uma vida mundana. "Vivo no meio de artistas e encontrei por acaso algumas pessoas muito conhecidas, mas que têm paixões que não têm nada a ver com a sociedade", comenta. "Acho que todos têm uma capacidade divina, uma capacidade de sonho".
Banier mostra-se orgulhoso com o fato de seu trabalho tocar as pessoas e conta que recebeu centenas de cartas, de várias partes do mundo, depois que algumas fotos suas, como a de Caroline de Mônaco de cabeça raspada, foram divulgadas. Essa imagem foi feita por sugestão da própria princesa e ficou secreta até que Banier pediu a ela permissão para publicá-la na capa de um livro seu. "Talvez essa receptividade ocorra porque, no meu caso, a pintura, a fotopintura e a fotografia são a mesma maneira de ver o mundo, são uma espécie de escrita", explica.
Escritor, fotógrafo e pintor não são os únicos títulos de Banier. Aos 52 anos, ele tem uma biografia cheia de aventuras. Colaborou com seu amigo Yves Saint-Laurent, inventando o nome do famoso perfume Opium. E chegou a atuar em vários filmes, sob a direção de alguns dos grandes cineastas franceses, como Robert Bresson e Eric Rohmer.
Muito recentemente, ele começou a ter vontade de experimentar um novo campo artístico, o da escultura. Esse desejo nasceu de forma insólita, depois que uma vidente lhe disse, em Paris, que não conseguia descobrir de forma alguma o que ele era. Mas arriscou, afirmando que via a possibilidade de ele ser escultor. Quem sabe essa adivinhação permita que os brasileiros se tornem os primeiros a ver as experiências de Banier no campo tridimensional.

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