ReproduçãoPaulo Francis: um polemista ferino e um romancista sofredorO polemista ferino e de sucesso escondia o romancista que sofria com as críticas à sua ficção. ‘‘O Paulo Francis não era uma pessoa realizada, não se satisfazendo em ser só jornalista, pois o que ele realmente desejava era ser um bom escritor de romances’’, afirma o editor Jorge Zahar, um dos maiores amigos de Francis. Autor de ‘‘Cabeça de Negro’’, ‘‘Cabeça de Papel’’, ‘‘O Afeto que se Encerra’’, ‘‘As Filhas do Segundo Sexo’’ e, mais recentemente, de ‘‘Trinta Anos Esta Noite’’, Francis dividia a crítica com os seus romances.
‘‘Numa situação enrolada como é a do Brasil, a ficção é capaz de expressar mais coisas que o jornalismo e se não gostam dos meus livros, a culpa é minha, pois fiz exatamente o que queria fazer: mostrar a minha geração e falar do País de agorinha mesmo, na visão de um brasileiro multinacional’’, explicou-se numa entrevista. E continuava a acalentar projetos sérios para a literatura. ‘‘Ele escreveu umas 50 páginas de ‘‘O Homem que Inventou o Brasil’’, um romance, em inglês, sobre Getúlio Vargas que pretendia publicar nos EUA, além de um livro de contos curtos, também já iniciado, inspirado em seu entusiasmo por Dalton Trevisan’’, revela Luís Schwarcz, da Cia das Letras, editora dos últimos livros.
‘‘Perco 30 segundos de sono por noite pensando nas críticas a meus romances’’, costumava disparar Francis. ‘‘Ele foi um caso curioso, porque, apesar das observações desfavoráveis que fiz aos seus livros, aceitou tudo com tolerância’’, conta o crítico literário Wilson Martins. ‘‘Francis tinha um estilo literário vigoroso, vivo, correto, criando suas obras num estilo improvisado, ao correr da pena, como se dizia antigamente’’.
ConservadorO poeta e editor Moacyr Félix, responsável pela publicação dos livros de Francis nas editoras Paz e Terra e Civilização Brasileira, também elogia a literatura do jornalista, embora faça a ressalva de que discordava de sua ideologia conservadora. ‘‘São romances muito bons, originais, uma maneira extravagante de ver a vida e que, por fugir da batida comum, não caíram no gosto do público’’, analisa Félix.
Já Moacir Werneck de Castro prefere falar do jornalista e do companheiro do passado. ‘‘O talento maior dele era mesmo o jornalístico, aquela capacidade de conquistar, com seu estilo, um público que não conhecia 90% dos assuntos de que ele falava e, ainda assim, gostava dele’’. Para Werneck, prevalece a lembrança do amigo tão excepcional quanto esnobe. ‘‘Havia um tempo em que o Francis vivia sem dinheiro, entrava num táxi e comandava: Toca por a풒.
O primeiro romance, ‘‘Cabeça de Papel’’, foi lançado em 1977 pela Civilização Brasileira, tendo como narrador um crítico de cinema e como principal personagem o editor de um grande jornal conservador que, antes de 1964, era um colunista de extrema esquerda. A crítica não deixou passar os traços autobiográficos e não perdoou a verborragia de seu estilo. ‘‘Meu livro é escrito de forma pessoal, não obedeço a nenhum formato acadêmico ou vanguarda, coisa que, aliás, não acredito’’, respondia Francis.
Idealizando uma trilogia, não concluída, escreveu, em 1979, ‘‘Cabeça de Negro’’, em que retratava um grupo de intelectuais analisando a sua militância política no passado e discutindo o regime militar. Em sua linguagem peculiar, Glauber Rocha, numa crítica ao livro, foi definitivo: ‘‘Transcendendo a Lyteratura, o destino de Francis é a Polytica e sinto-me o seu Dyonyzius como o vejo meu Apolo’’. Para o jornalista Cláudio Abramo, o romance, ‘‘como as máscaras africanas da década de 20, ainda não foi absorvido pela crítica, que terá, contudo, de aceitá-lo’’.
Estimulado, Francis, ao chegar aos 50 anos, decidiu abrir-se em ‘‘O Afeto que se Encerra’’ (Civilização Brasileira, 177 páginas, R$ 12,50), de 1980, no qual descreveu a sua infância de forma tocante, a criança insegura que se apoiava em dezenas de citações. Ousado, a partir do convite, frustrado, de criar contos eróticos para a revista ‘‘Status’’, escreveu ‘‘As Filhas do Segundo Sexo’’ (Civilização Brasileira, 123 páginas, R$ 7,00), narrado segundo o ponto de vista de duas mulheres, Clara e Mimi.
Por anos o jornalista calou o romancista e só em 1994 Francis voltou aos livros com ‘‘Trinta Anos Esta Noite’’ (Cia das Letras, 207 páginas, R$ 16,50), em que dava a sua visão do golpe de 1964. Autor privilegiado de frases agudas, ganhou um dicionário de suas citações, ‘‘Waal - O Dicionário da Corte de Paulo Francis’’ (Cia das Letras, 165 páginas, R$ 23,00), organizado por Daniel Piza.

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