Começou ontem aqui a mais ambiciosa investida gaulesa dos últimos tempos. Sem botar a mão numa Palma de Ouro há 15 anos, a equipe da casa começou em vantagem no placar, pelo menos simbólica e psicologicamente, garantindo cinco títulos na competição oficial, além de oito espalhados pelas várias seções paralelas. É de longe a maior delegação francesa na história recente do Festival de Cannes, o que já motivou maledicências, ironias e insinuações diversas. Xenofobia, nepotismo, chame do que quiser: o fato é que cinco importantes realizadores da terra foram selecionados entre outros 85 conterrâneos, e estão aqui para, de uma forma ou de outra, ganhando ou perdendo, garantir uma maior visibilidade e prestígio internacional para o filme francês, considerado por eles antes como bem cultural, e só então como produto econômico. Fórmula exatamente inversa àquela praticada nos Estados Unidos, e que provavelmente explica o espectro de uma crise econômica atualmente em gestação no cinema francês, depois de um período de estabilidade. Se por um lado este número expressivo de concorrentes não é suficiente para mascarar os principais sintomas deste momento difícil - falta de público e dificuldades para financiamento -, por outro lado demonstra, sobretudo, a diversidade da produção local.
Abrindo a fila aleatoriamente, o diretor André Techiné está mais uma vez na competição, que já frequentou com ''Os Ladrões'' e ''Minha Estação Preferida'', sem premiações. Agora comparece com ''Les Égarés'', a partir de um romance de Gilles Perrault. O filme segue o destino de uma jovem e bela mãe de família, Odile (Emmanuelle Béart), que, em 1940, abandona Paris e sai pelas estradas do interior com dois filhos menores fugindo dos invasores alemães. A intrusão de um estranho e perturbado jovem, Yvan (Gaspard Ulliel), instala um sentimento de inquietude. O pequeno grupo se refugia numa casa abandonada, lugar e circunstância ideais para Téchiné, como de hábito, colocar em cena a violência das paixões que vêm perturbar o curso natural das coisas e o chamado ''seio familiar''. A sombra da tragédia é uma constante nesta narrativa sempre em chave minimalista.
Evidentemente ''Les Égarés'' se inscreve na categoria do drama psicológico com background de filme de época. Na filmografia de Téchiné está mais próximo de ''Rosas Selvagens'', o belo filme sobre paixões adolescentes realizado em 1994. Tudo bem correto, nos seus devidos lugares, produção exemplar mas sem grandes vôos, sem maiores ousadias. Brava e estonteante como sempre, La Béart. Filme capaz de provocar prazer intelectual e sensorial, mas sem entusiasmo. E nada de Palma de Ouro.
E ontem, na sessão de gala no Palais, André Techiné recebeu uma estranha companhia. Arnold Schwarzenegger, com a mulher Maria Schriver, escolheu o programa da noite para fazer a tradicional ''monteé de marches'', ou a badalada subida da escadaria aveludada. Uma súbita paixão pelos filmes franceses? Pouco provável, já que o motivo da presença de Schwarzie é a promoção de ''Terminator 3''. Hoje, entre meio dia e 2 horas, com a vênia da prefeitura e a boa vontade dos ''cannoises'', parte da Croisette vai ser interditada para uma demonstração que o ator fará ao lado de dezenas de robôs que participam do filme.
Amanhã é dia de Brasil na tela do Grand Théatre Lumière. ''Carandiru'' tem tudo para fazer boa figura numa seleção que parece bem equilibrada, sem que nenhum filme desponte como favorito disparado. Algumas primeiras críticas de jornalistas europeus que já viram o filme foram favoráveis. O concurso de curtas-metragens, com o brasileiro ''A Janela Aberta'', acontece no próximo sábado, 24, último dia do festival.

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