Pode levar sim, o que não significa que vai levar o prêmio máximo. Mas com certeza não sai daqui sem uma boa recompensa, ou este júri, principalmente sua presidente, a francesa Isabelle Huppert, vai ter que se explicar em casa. Mesmo sem conhecer ainda boa parte dos selecionados da mostra competitiva, o primeiro dos quatro representantes da terra já está entre os melhores desta safra de pesos-pesados - e o diretor Jacques Audiard nem pertence à categoria, ficando mesmo ali na faixa dos meio pesados. Mas sua pegada neste ringue de feras mostrou que tem poder para nocautear os demais concorrentes.
É um filme de prisão, mas também não é bem isso. Nada parecido com os clichês formais e de ideias, nem nada semelhante aos estereótipos dessa extensa galeria de personagens e situações das quais o cinema sempre usou e abusou. É um filme sobre a iniciação de um criminoso. A gênese, o aprendizado, a gestação de um novo profeta do crime, de uma nova geração habilidosa que, sem abrir mão da violência, está lidando com uma nova realidade criminosa. Daí o título.
É a história do jovem árabe Malik (Tahar Rahim, uma revelação com direito a favoritismo), condenado a seis anos. Na prisão ele se torna peça importante para a máfia corsa, evoluindo como peça-chave num complexo xadrez que lida e manipula o poder, dentro e fora das celas. O roteiro brilhante não deixa brechas nesse relato detalhista, tanto como crônica do dia a dia na cadeia como na dissecação do crime organizado.
Realista e cínico a um só tempo, ''O Profeta'' não apenas vai satisfazer o público das salas de arte e ensaio como também terá trânsito livre e será bem aproveitado pelos circuitos comerciais. Estimulante, o filme deve causar um bocado de desconforto entre os meios oficiais franceses porque mete o dedo em duas feridas nacionais: o sistema prisional e a crescente população islâmica no país.
E quem está de volta a Cannes depois de nove anos é Ang Lee, que vem de uma temporada em Veneza, onde nos últimos quatro festivais levou dois Leões de Ouro por ''Brokeback Mountain'' e ''Luxúria, Perigo'', que acaba de estrear no Brasil. Ele está aqui na competição com ''Taking Woodstock''. Bom filme, mas não o melhor que o diretor pode produzir, aliás ele mesmo reconhece que foi sua hora de recreio, um momento cool entre os rigores dramáticos de seus últimos filmes: ''Não faço algo assim há treze anos, eu bem que merecia este relax'', disse um sorridente Lee durante a coletiva. Ótimo seria se todos relaxassem como ele...
''Taking Woodstock'' evoca a Era de Aquarius, o tempo hippie de paz e amor e make love not war - tudo visto através da organização do mítico concerto de Woodstock. O filme fica exatamente aí, nos bastidores do megaevento que marcou um momento de ruptura para a juventude dos EUA, principalmente nos laços morais e políticos, e sacramentou o último momento de inocência de uma geração, não apenas na América, mas em todo o mundo.
Baseado nas memórias de Elliot Tiber, então um teenager que há quatro décadas ajudou a preparar o concerto de rock numa zona rural próxima a Nova York, ''Taking Woodstock'' é um filme leve, uma simpática, agradável comédia de costumes, uma happy hour que flerta constantemente com a nostalgia mas nunca se entrega à melancolia. E por isso não pretende fazer inventário sociológico e político profundo sobre um momento de transformações - o homem na Lua, o Vietnã em chamas, tensão no Oriente Médio. No entanto, falta ao filme aquilo que foi crucial no momento: a música. Por mais que Lee diga que os bastidores eram o foco, e não o palco, ao final fica a sensação da passagem de um inebriante tornado que tudo varreu, mas em completo silêncio.

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