Reciclando a competição oficial de Cannes, temos mais um filme francês, o quarto, apenas razoável, ‘‘La Petite Lili’’, de Claude Miller. Livremente baseado na peça ‘‘A Gaivota’’, de Tchekov, o filme oferece uma sensível homenagem a ‘‘A Noite Americana’’, de François Truffaut, de quem Miller foi assistente. A China aparece em Cannes debilitada com ‘‘Purple Butterfly’’, de Lou Ye, um confuso afresco histórico-erótico com indigestos ingredientes de espionagem em tramas paralelas. Na Mandchuria dos anos 1930, espiões japoneses são rastreados pela contra-espionagem chinesa. No elenco, um colírio para a paciência: a estonteante Zhang Ziyi, de ‘‘O Tigre e o Dragão’’. Do russo Alexander Sokúrov, ‘‘Père et Fils’’ é sobre pai jovem e filho idem vivendo uma vida de mútua dependência num apartamento e alienando outras pessoas de seu cotidiano. Sokúrov trata seu argumento à maneira de uma parábola que não tem princípio e nem fim, e não abre mão de seu cinema-ensaio, formalmente rebuscado. Na coletiva, o cineasta quase perdeu a compostura quando alguém apenas insinuou que o filme passa um clima incestuoso.
  ‘‘The Tulse Luper Suitcases: The Moab Story, Part I’’ é a mais recente e até que bem divertida extravagância de Peter Greenaway, trabalhando o personagem-título como seu assumido alter-ego. O filme utiliza, além do cinema, a televisão, o DVD, a internet e os livros, e foi apresentado aqui como o primeiro de três longas, dadas as dimensões enciclopédica do projeto. O multimídia Greenaway pode ser freqüentemente um diretor entediante, mas sempre com estilo e originalidade.
  Decepcionante a primeira incursão japonesa pela mostra competitiva. ‘‘Akaru Mirai’’ reafirma o sombrio universo onde há cinco anos e três filmes anda metido o diretor Kiyoshi Kurosawa - absolutamente nenhum sinal da genialidade do homônimo. O filme é uma arrastada, obscura reflexão sobre o vazio e o conseqüente impasse existencial que sufoca boa parte dos jovens nas grandes cidades. Os asiáticos andam se especializando neste tipo de drama urbano, e a metáfora da vez é uma água-viva colorida, luminosa e letal.(C.E.L.J.)

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