São quatro este ano as chances da França segurar em casa a Palma de Ouro. Restam agora três, já que ‘‘Pola X’’ não deve provocar muito interesse no júri, e está longe daquilo que se poderia chamar de um grande trabalho. Esperado com muita expectativa mas a partir de hoje pouco amado, o filme marca o retorno à direção de um jovem talento superestimado, responsável por um título visceralmente polêmico do início da década, o cult artificial ‘‘Os Amantes de Pont-Neuf’’.
Leo Carax, aliás Alexandre Dupont, está por trás de ‘‘Pola X’’. Pretensão não lhe falta. Amor, arte e morte; o mundo real, a verdade e a vida. O filme é baseado em romance de Herman Melville, ele mesmo, o imortal criador de ‘‘Moby Dick’’, mas também capaz de cometimentos como este, pessimamente recebido. Autobiográfico, o livro narra as desventuras do escritor, em especial suas relações difíceis com o editor, a mídia e com o público, principalmente no que se refere a utilização de um pseudônimo. O filme tem a ambição de seguir a trajetória de um jovem escritor, Pierre, que vive existência burguesa aparentemente tranquila num castelo no campo, com uma bela e ambígua mãe - Catherine Deneuve, e quem mais se não ela? - e uma noiva, jovem, doce e fresca como a manhã. Mas um fantasma em carne e osso surge para subverter esta ordem aparente. Do fundo da floresta que cerca o castelo, uma voz e um vulto, uma irmã de existência até então ignorada, fruto europeu oriental de um romance do pai diplomata, já morto.
A novidade leva Pierre do campo à cidade, da música clássica a contemporânea, da alta burguesia à miséria, e também da paz à guerra, da virgindade ao incesto. É na reformulação da existência do personagem que Carax perde a mão. E o também o rumo, enquanto do lado de cá da tela perde-se a tolerância. É na busca da ‘‘grande verdade’’, da ‘‘verdadeira vida’’ e do ‘‘mundo real’’. Há, sim, algo a se admirar: belas e poderosas imagens de cinema, que no entanto vão escapando, se diluindo. À medida em que o filme avança e se aproxima de um desfecho, mais as belas imagens se tornam numerosas e sem propósito. Para quem quer que seja: um crítico, um cinéfilo ou um espectador comum, ‘‘Pola X’’ é um filme difícil de amar, tantos são os problemas que se acumulam ao longo de seus 134 minutos.
Sem qualquer pista ou indicação do significado do título, ficamos sabendo, por ‘‘deferência’’ toda especial de Carax durante a coletiva, que ‘‘Pola X’’ é o título de trabalho utilizado durante as filmagens e afinal mantido. São as iniciais de ‘‘Pierre Ou Les Ambiguités’’, o romance de Melville onde o filme se inspirou.
Há apenas quatro dias das sempre concorridas e sempre decisivas eleições em Israel, o realizador Amos Gitai está em Cannes. ‘‘Kadosh’’ é a última parte de uma trilogia sobre aquele país na qual, através da especificidade de três dos maiores centros urbanos de Israel, o tema predominante são os múltiplos aspectos da paisagem humana desta ‘‘terra prometida tão diversificada’’. No primeiro filme, ‘‘Devarim’’’’, o retrato de uma geração que habita Tel-Aviv, filhos de pioneiros em busca de uma identidade e de um estado laico, não religioso - a geração do próprio Gitai. Em ‘‘Yom Yom’’, a cidade escolhida foi Haifa, palco de miscigenação entre israelenses e palestinos.
France PresseLeo Carax, o diretor de ‘‘Pola X’’: filme francês fica aquém das expectativas ao ser exibido na mostra competitiva em Cannes‘‘Kadosh’’, que significa ‘‘sagrado’’, trata da religião e a história se passa obviamente em Jerusalém, centro espiritual de cristãos, muçulmanos e judeus. Mais precisamente, o filme está ambientado em Mea Shearim, área de judeus ortodoxos. É neste microcosmo de regras estritas que vivem duas irmãs, Rivka e Malka. A mais velha, Rivka, é casada há dez anos com Meir. A mulher não engravida (ela se acredita estéril), e o marido, religioso ao extremo, deve assumir sua descendência. O que significa, com a orientação e aprovação do rabino, repudiar a esposa relegada à solidão - mesmo que a infertilidade possa ser do marido, o que nem chega a ser cogitado. A caçula, Malka, percorre o caminho inverso. Apaixonada por um não religioso, não aceita submeter-se ao casamento com um ortodoxo. Ela parte para viver longe da comunidade.
Realizado com recursos visivelmente modestos, ‘‘Kadosh’’ vai incomodar uma grande parcela da comunidade israelense. O filme é um sondagem bastante corajosa do universo dos ‘‘ultras’’. Amos Gitai, partidário fervoroso da paz no Oriente Médio, escolheu o cinema para abrir suas brechas no monolítico sistema religoso, mostrar suas falhas. Sua abordagem ficcional, graças à formação como documentarista, chega a impressionar pelo estilo franco e direto, por uma dramaturgia seca e sem concessões. Através do retrato das duas irmãs, ele alcança o que jamais veio a público sobre a condição feminina em Israel, o lado mais obscuro, a repressão sustentada por hábitos medievais apenas justificados pelo Talmud.
De maneira mais genérica, ‘‘Kadosh’’ também examina as relações do indivíduo com a comunidade e explora a noção de cumplicidade e de prazer pessoal num sistema hermeticamente fechado. Para provar que gosta mesmo de se arriscar para fazer o cinema que julga necessário, Amos Gitai recrutou um ator palestino para interpretar o ultra-ortodoxo rabino. E não é só: acaba de realizar ‘‘Guerra e Paz em Vesoul’’, uma discussão sobre a vida e a política. Co-diretor do filme: Elia Souliman, cineasta palestino.


-Para a cobertura do Festival de Cannes, Carlos Eduardo Lourenço Jorge conta com o apoio da Internet by Sercomtel.France PresseA atriz Meital Barda (à esquerda), o diretor de ‘‘Kadosh’’, Amos Gitai, e Yael Abecassis: filme israelense também discute a condição femininaCarlos Eduardo Lourenço Jorge
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