França comemora o centenário de Lacan
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quinta-feira, 12 de abril de 2001
Claude Casteran France Presse 
Jacques Lacan, figura principal e controvertida da psicanálise, falecido nodia 9 de setembro de 1981 e que completaria cem anos hoje, passou a fazer parte da memória coletiva francesa.
Não sabemos exatamente onde, mas sabemos que está aí, resume o jornal Libération em um suplemento que publica nesta sexta-feira dedicado ao psicanalista, enquanto muitos intelectuais continuam questionando se foi um gênio, ou um guru, um deus ou um bufão.
O fato é que seus jogos de palavras e suas expressões continuam alimentando a linguagem comum, o que prova que sua influência supera amplamente o círculo dos iniciados.
A revista La Vie cita Lacan na primeira página, ao afirmar que o cristianismo não disse sua última palavra, enquanto o editorial de Libéracion recorreu a ele ao afirmar, evocando o conflito da firma Danone na França, que todo ato falido é um discurso conseguido.
A linguagem de Lacan era hermética em algumas ocasiões, o que lhe atraía a ironia de seus adversários. Mas também podia ser divertido, com seus engenhosos jogos de palavras.
Jacques Lacan nasceu em Paris em uma família católica tradicional da burguesia média. Estudou medicina, orientando-se para a psiquiatria. Em 1932, dedicou a Sigmund Freud sua tese, intitulada Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade.
Fez uma nova leitura de Freud, considerada iconoclasta pela Sociedade Psicanalítica de Paris, da qual foi excluído. Em 1964, criou a Escola Freudiana de Paris, que ele mesmo dissolveu em 1980.
Sejam lacanianos vocês se quiserem. Eu sou freudiano, dizia. O essencial de sua contribuição reside na idéia de que o inconsciente é o discurso do Outro e que é estruturado como uma linguagem.
Em Libération, Robert Maggiori assinala que Lacan substituiu o penso logo existo de Descartes por um enigmático penso onde não existo, logo existo onde não penso.
Seus seminários eram um acontecimento em Paris, onde um grande público comparecia para ouvir seus discursos entrecortados por longos silêncios. Ele forjou sua própria lenda, com suas camisas e gravatas extravagantes, seus charutos, os microfones e a multidão pendente de qualquer frase. Tudo muito teatral.
Lacan considerava que uma sessão de psicanálise não tinha de durar necessariamente 45 minutos, afirmando que o avanço residia nas frases mais essenciais do discurso e não em sua duração.
Nos últimos anos de sua vida, reduzia as sessões a poucos minutos, atendendo até dez pacientes por hora, com o que sua fortuna aumentava, segundo assinala sua biógrafa Elisabeth Roudinesco.
Até muito depois de sua morte, em consequência de um tumor abdominal, seus filhos disputavam sua herança. Por direitos de sucessão, o Estado francês recebeu o famoso quadro A origem do mundo, de Gustave Courbet, que Lacan manteve durante 30 anos oculto sob um painel de madeira e que raramente mostrava.


