São Paulo, 10 (AE) - No ano passado, os franceses tiveram uma overdose de Brasil. Graças à Copa do Mundo, eles viram, durante dois meses, uma invasão de camisas verde e amarelas, aprenderam a jogar capoeira, caíram no samba com o carnaval e, acima de tudo, se encantaram com a alegria espontânea dos brasileiros. Em 1999, a França vai voltar a abrir suas portas ao Brasil, agora no campo das artes plásticas. Em outubro, será realizada, em Paris, a exposição "Brasil Barroco - Entre Céu e Terra", a maior reunião de arte barroca brasileira já feita em outro país.
A mostra - organizada pela União Latina, entidade intergovernamental formada por 34 países de língua latina - vai levar para o Petit Palais, entre 15 de outubro e 15 de janeiro, 350 obras de arte (pinturas, esculturas, mobiliário, batistérios, púlpitos, etc.) pertencentes a cerca de 35 instituições brasileiras, entre museus, igrejas, universidades, bibliotecas, além de coleções particulares.
A realização da exposição na passagem para o ano 2000 é intencional. Segundo a diretora-cultural da União Latina, a francesa Elisabeth de Balanda, o objetivo é incluir o evento nas comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil. "Acima de tudo, queremos que a exposição intensifique o intercâmbio cultural entre os dois países", afirma Elisabeth.
Pelos números envolvidos na mostra, esse intercâmbio vai ocorrer de forma grandiosa. A começar pelo espaço em que as obras serão expostas. O Petit Palais vai dedicar todo o andar térreo, de 2,8 mil metros quadrados, à exposição. O orçamento do evento é de US$ 3,5 milhões. Desse total, US$ 2 milhões já foram levantados pela prefeitura de Paris, pela Comunidade Européia e pela Air France Cargo, empresa que será responsável pelo transporte das obras à França.
"Brasil Barroco" vai reunir principalmente esculturas de cunho religioso. A idéia é representar a evolução do barroco desde o início do século 17 até a Independência, no começo do século 19, revisitando os focos artísticos das obras, como o Nordeste, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. "Há uma identificação muito grande entre a história do Brasil e a do Barroco, que está presente em todos esses Estados", diz Elisabeth.
A União Latina deve enviar cerca de 500 pedidos de empréstimo de obras. Instituições particulares e religiosas de sete Estados fazem parte da lista, entre elas o Museu Franciscano de Arte Sacra (Recife), o Museu de Arte Sacra de Pernambuco (Olinda), o Museu de Belém (Pará), o Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia, a igreja do Convento de São Francisco (Salvador), o Museu da Inconfidência (Ouro Preto), a Igreja do Carmo (Sabará), o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (Congonhas do Campo), o Masp (São Paulo), o Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro) e o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, entre outros.
A mostra vai dedicar uma seção inteira à obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, artista que, apesar de ter o nome intimamente associado ao Barroco, é pouco conhecido no exterior. A seleção das obras do escultor mineiro vai dar prioridade à escultura de devoção, às moldagens dos profetas e, se possível, a uma das capelas da famosa via-crúcis de Congonhas.
O evento em Paris não se resume, porém, à exposição. O público também poderá ver mapas, livros, quadros de paisagens e etnográficos pintados no Brasil por artistas estrangeiros - como Frans Post e Eckhout - tapeçarias, retratos e peças de ouriversaria religiosa e profana, entre outros objetos. Além disso, serão expostas fotografias de grandes dimensões de igrejas nordestinas e mineiras com a intenção de reproduzir a arquitetura na qual a arte barroca está inserida no País.
O catálogo da mostra será outro destaque do evento. A publicação terá textos em cinco idiomas escritos por especialistas e intelectuais brasileiros e europeus. Entre os convidados estão o filósofo Benedito Nunes, o poeta Haroldo de Campos; a professora de história da arte Ana Maria Belluzzo, o diretor do Museu de Arte Sacra da Bahia, Eugênio de ávila; o diretor da Pinacoteca do Estado, Emanoel Araújo; os historiadores Nicolau Sevcenko, José Luiz da Mota Menezes e Armindo Trevisan, entre outros.
"Brasil Baroco" já recebeu o apoio do governo brasileiro, da Embaixada do Brasil na França e da Embratur.

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