São Paulo, 16 (AE) - Finalmente estréia no Brasil "Fragmentos Troianos", adaptação de Antunes Filho para As Troianas, de Eurípides, a primeira tragédia grega na carreira do diretor do antológico Macunaíma. O espetáculo já apresentado na Turquia e no Japão reinaugura amanhã (17) à noite o Teatro Sesc Anchieta, em São Paulo, fechado desde o início do ano passado para reformas. "Se antes era um dos melhores teatros da cidade, agora é o melhor", diz Antunes.
Três anos depois de "Drácula e Outros Vampiros", Antunes garante ter despojado o palco de efeitos visuais ou pirotecnias. Todo o seu empenho foi dirigido para fazer com que os atores atingissem os cumes da tragédia com naturalidade - não confundir com naturalismo. "Todas as vezes que tentei montar uma tragédia desisti, porque os atores começavam a gritar e a se contorcer e destruíam a poesia do texto". Desta vez, Antunes acredita ter conseguido levar ao palco a beleza e a contundência da tragédia grega. "O espetáculo é simples, franciscano; essa peça não precisa de efeitos".
Escrita por Eurípides como um libelo contra a guerra, a ação de "As Troianas" inicia-se com o fim da Guerra de Tróia. Depois de dez anos de cerco, os gregos finalmente venceram os troianos com o conhecido estratagema do cavalo de madeira. Fingindo ter levantado o cerco e retornado à Grécia, o exército abandona no campo de batalha um cavalo de madeira que o povo troiano leva para dentro dos muros da cidade como um troféu. Na calada da noite, quando os troianos dormem ébrios pelas celebrações de paz, saem de dentro do cavalo os gregos que matam os soldados adormecidos.
Tudo isso já é trágica lembrança quando "Fragmentos Troianos" tem início. As mulheres troianas, entre elas a rainha Hécuba, sua filha Cassandra, a virgem sacerdotisa destinada ao culto de Apolo e sua nora Andrómaca - que traz nos braços seu filho, o bebê Astianax, o único sobrevivente do sexo masculino - estão sendo distribuídas entre os gregos como despojos de guerra. Ao fundo, a cidade em chamas, uma vez que os gregos resolvem não deixar pedra sobre pedra.
Antunes não escolheu por acaso "As Troianas" para ser a primeira tragédia de sua carreira. "Todos os meus espetáculos falam da realidade em que vivemos". Escrita em 415 às vesperas das guerras contra a Sicília e a Siracusa por um Eurípides indignado com o clima de intolerância e belicosidade que reinava na Grécia, o texto fala de uma guerra sem heróis, na qual todos acabam vencidos. "Vivo nesta época de guerras étnicas e o espetáculo remete a todas as guerras deste século, desde a 2.ª Guerra com seus campos de concentração nos quais morreram 6 milhões de judeus até a Guerra da Bósnia", explica Antunes. "Quando dirigi "Drácula" eu falava do neonazismo que estava ressurgindo na Europa e no Sul do Brasil; o Drácula representa o mal redivivo", lembra.
Mas que ninguém espere remissões literais. Apesar do título, o texto nada tem de fragmentado e os diálogos não sofreram "atualizações". As remissões às guerras deste último século estão na encenação e não no texto. Elas podem ser percebidas, por exemplo, nos cenários e figurinos, concebidos por Jacqueline Castro Ozelo, Joanna Salles e Cibele Cardim. Os uniformes dos soldados gregos têm elementos tanto de soldados nazistas quanto de bósnios. No palco, uma cerca de arame farpado que remete aos campos de concentração. Atrás da cerca, a pintura de Juvenal Irene dos Santos num imenso telão mostra Tróia destruída e a estátua de Pala Atenas - a deusa da razão - tombada.
Curiosamente, a imagem de Pala Atenas lembra a estátua da liberdade e provoca uma reflexão semelhante àquela apontada por Eurípides. O mesmo país fundado sobre os valores da liberdade estimula, com a venda de armas, as atuais guerras. Da mesma forma que a civilização grega fundada sobre os valores da beleza e da sabedoria foi capaz de promover guerras sangrentas. "O mal faz parte da natureza humana que sempre oscilará entre criação e destruição", comenta Antunes. "A arte também é parte disso e deve estar do lado da criação; o artista tem responsabilidade social sobre a valorização da vida".
Antunes analisa a possível influência de certos filmes no comportamento violento de jovens, uma discussão reaberta pela ação do estudante de medicina brasileiro que fuzilou espectadores no cinema. "Acho que determinados filmes criam um clima propício porque banalizam a vida, o contrário do que quero fazer com "Fragmentos Troianos". Depois de toda a carnificina que é a Guerra de Tróia, Antunes termina o espetáculo com uma canção natalina.
"Vão pensar que é só porque estamos próximos ao Natal, mas não é isso", ironiza. "Escolhi essa música porque quero que as pessoas reflitam na passagem do milênio sobre a hipocrisia da confraternização", diz. "Todo mundo se abraça, deseja feliz Ano-Novo, mas em seguida sai fazendo exatamemte o mesmo de sempre e nada se transforma". Antunes assume ter utilizado algumas idéias da adaptação do escritor Jean-Paul Sartre dessa mesma peça. Entre elas o prólogo e o epílogo. O primeiro é um diálogo entre Poseidon, o deus dos mares, e Pala Atenas, a deusa da razão, o qual ajuda o público a entender as origens da guerra.
O epílogo, uma exortação irada do autor, Antunes ainda tem dúvida sobre a forma como vai utilizá-lo, mas não gostaria de abrir mão desse acréscimo ao texto original da tragédia. "O que é bom a gente usa, por que não?" Serviço - "Fragmentos Troianos". Adaptação e direção de Antunes Filho. Duração: 1h10. De quinta a sábado, às 21h30; domingo, às 19 horas. R$ 20,00. Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, tel. 256-2281. Estréia amanhã (17) para convidados

mockup