''Fragmentos'': testemunho ou ficção?
Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
Especial para a Folha
Se você leu Fragmentos (Companhia das Letras, R$ 16,50) achando que estava lendo mais um extraordinário relato de um sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, nos moldes do Diário de Anne Frank ou de A Trégua, de Primo Levi, pode ter sido enganado por um prodigioso escritor que se aproveitou da necessidade eterna da reflexão sobre o Holocausto. O livro, que vendeu milhões de exemplares ao redor do mundo e que foi traduzido para doze línguas, pode se transformar agora num caso de perda de identidade literária (afinal, seria ele ficção ou memórias) e num caso de polícia.
Binjamin Wilkomirski conta em Fragmentos sua infância passada nos campos de concentração de Majdanek e Auschwitz, na Polônia. É o tipo de leitura que emociona pelo absurdo da barbárie perpetrada pelos nazistas. Por se tratar de memórias de uma criança, o apelo é ainda mais dramático para o leitor. Tudo, porém, pode não passar de um embuste literário.
Quem defende a tese de que Fragmentos trata-se de uma farsa é o jornalista judeu Daniel Ganzfried, que publicou duas reportagens no jornal suiço Weltwoch afirmando categoricamente que Wilkomirski não era Wilkomirski. Pior: o autor de tão pungentes relatos não seria sequer judeu e jamais estivera num campo de concentração.
Ganzfried afirma que Binjamin Wilkomirski na verdade chama-se Bruno Doessekker. Filho ilegítimo de Yvonne Grosjean, Doessekker teria sido adotado em 1945 por um casal de ricos médicos que lhe deram o nome este nome. Bruno estudou em Zurique, casou-se, tornou-se músico e é pai de três crianças. Jamais viveu os horrores do Holocausto. Wilkomirski/Doessekker, confrontado com a revelação do jornalista, limitou-se a dizer que se trata de uma conspiração contra ele.
Não se trata de uma questão de qualidade literária. Trata-se de saber como se deve ler Fragmentos. Como ficção ou como obra de testemunho histórico?





