Redimensionando o experimentalismo e ultrapassando a arte Conceitual - já que seu fazer não visava só evidenciar os conceitos, mas fustigá-los -, Beuys foi um artista que se moveu pelos fragmentos do Romantismo e do Expressionismo Alemão, tentando responder através da arte as questões da Cultura. Provocativa, sua atitude perante o mundo desconsiderava os riscos pessoais e o medo de parecer ridículo por unir aspectos aparentemente tão desconexos de sentido, como a relação arte e vida.
Enrolado em um cobertor de feltro, viajou da Alemanha para os Estados Unidos para realizar a ação ‘‘Eu Gosto da América e a América Gosta de Mim’’, de 1974. Durante vários dias, se fez enjaular em uma cela, dentro de uma galeria de Nova York, com um coiote selvagem - símbolo considerado sagrado para algumas tribos nativas -, um cajado e exemplares do Wall Street Journal, sobre os quais o coiote urinava. Relacionando-se com o animal, o artista acreditava que poderia aprender daquilo que considerava ser sua forma superior de inteligência, que era a intuição. Além disto, a relação do primitivo com o moderno é explicitada nas presenças do coiote e dos jornais.
Inspirador e defensor do Partido Verde, Beuys foi o precursor dos famosos abraços em torno de parques e monumentos, denominados por ele de Escultura Social. Sua militância ambiental se tornou conhecida depois que ele iniciou o projeto 7000 Carvalhos, em 1982, para a exposição da 7ª Documenta de Kassel. Seu plano, envolvendo a comunidade e completado por seu filho, após sua morte, era o plantio de árvores pelos arredores da cidade, ao lado de uma pedra de basalto, que serviria para indicar a ação e também para comparar o crescimento da árvore, material orgânico, à consistência da pedra, material inorgânico. Para as funções estéticas e sociais do trabalho não é necessário para o observador saber se é uma obra de arte ou não. O caráter de arte fica dissolvido em uma efetividade social direta que beneficia os habitantes e cidadãos. ‘‘Terá um resultado visual muito forte em 300 anos’’.
Caos e ordem, natureza e homem, energia e matéria, permanência e movimento. Para Beuys, tais polaridades fazem parte integral de seu sistema criativo, sempre trazendo como tema as grandes questões do primordial, do arcaico, da fertilidade, da ancestralidade, da escatologia e do apocalipse. Para o autor da Bomba de Mel, de 1976 - ele via nesta substância nutritiva preciosa o modelo ideal para o fluxo de uma energia de pensamento positiva que pode ativar e apoiar processos de transformação sociais - e que ensinou arte a um coelho morto, ‘‘a arte não é para ser entendida simplesmente, ou nós não teríamos nenhuma necessidade dela’’. Mistérios que fazem parte do legado que o mito nos deixou.

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