Fragmentos e territórios de Luiz Ruffato
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
Nelson Sato <br> Reportagem Local 
Um dos principais autores da prosa contemporânea brasileira, o mineiro Luiz Ruffato fala hoje no Londrix/Festival Literário de Londrina. A palestra, intitulada ''O Cotidiano do Escritor'', começa às 21h no Teatro Zaqueu de Melo.
Aclamada pela crítica, sua obra é marcada pela experimentação de formas e pelos retratos fragmentários do indivíduo na realidade brasileira atual. Nascido em Cataguases (MG) em 1961, ele vive em São Paulo, onde passa quatro meses por ano - os outros meses são dedicados a viagens nacionais e internacionais, como ele revela nesta entrevista à Folha.
Antes de se tornar escritor, fez de tudo: foi pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete e vendedor de livros autônomo.
Tem vários livros premiados, indicados ou finalistas em concursos literários de prestígio. Um deles é ''Eles eram muitos Cavalos'' (2001), contemplado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria Melhor Romance e pelo Prêmio Machado de Assis de Narrativa da Fundação Biblioteca Nacional.
Outros romances consagrados são ''Mamma, son tanto felice'' e ''O Mundo Inimigo'', respectivamente volumes 1 e 2 da série Inferno Provisório e ambos vencedores do Prêmio APCA como Melhor Ficção de 2005. A palestra de hoje terá mediação de Luiz Carlos Simon. A entrada é gratuita.
Confira a entrevista que o autor concedeu, por e-mail, à FOLHA:
Folha de Londrina: Você já trabalhou em diversas atividades antes de ser tornar escritor. Atualmente vive exclusivamente de literatura?
Luiz Ruffato: Sim, vivo exclusivamente da literatura, em sentido amplo. Direitos autorais (no Brasil e no exterior), cachês para conferências e palestras, participação como jurado em concursos literários, etc.
O tema de sua palestra na quarta-feira é ''O Cotidiano do Escritor''. Como é sua disciplina para escrever? Tem um período do dia e local específico para trabalhar?
Hoje dividido meu ano em duas partes: quatro meses em que me dedico exclusivamente a escrever (dezembro, janeiro, fevereiro, março e agosto) e oito meses em que me dedico a viagens nacionais e internacionais (conferências e palestras em universidades, feiras e festivais literários). Quando estou no período de escrita, dedico-me cinco horas e meia por dia (das sete da manhã ao meio-dia e meia), incluindo sábados e domingos.
A crítica costuma ressaltar a forma, a elaboração da linguagem em suas narrativas, mais do que as temáticas de suas histórias. Você concorda com essa avaliação?
Sim e não. Para mim, não existe literatura sem a preocupação formal. Mas, ao mesmo tempo, não consigo compreender a literatura que tem como fim último a forma. Portanto, forma e conteúdo para mim são uma e mesma coisa... Escrevo sobre a realidade brasileira (particularmente, me interessa o tema do pertencimento, da desterritorialização), mas sempre atento à possibilidade de experimentar com a linguagem.
Salvo engano, seu primeiro livro foi um volume de poesia. O que o levou a abandoná-la para priorizar a prosa de ficção?
Na verdade, não abandonei de todo a poesia. A poesia foi uma experiência com a linguagem para tentar me aproximar da prosa. Hoje, a minha prosa absorveu a poesia (os procedimentos poéticos, principalmente) e está encharcada dela... O que, portanto, não impede que eu volte a cometer poemas no futuro...
Qual o principal desafio do escritor diante dos suportes digitais?
Não se preocupar com eles. Eles não são um problema nem uma solução. Trata-se apenas de um novo suporte para a escrita, o que, claro, implica em mudanças, algumas sutis, outras mais evidentes, mas nada que vá modificar a substância da literatura.
A literatura brasileira contemporânea vive um ciclo de criatividade ou de repetição de fórmulas?
Eu vejo com extremo otimismo o momento por que passa a literatura brasileira. São inúmeros caminhos, inúmeros gêneros, inúmeros autores... Ou seja, temos uma produção para todos os gostos... E, por isso, temos criatividade e temos repetição de fórmulas...
Quais são seus projetos atuais? Tem algum livro no prelo?
Em outubro sai o quinto e último volume da série ''Inferno provisório'', intitulado ''Domingos sem Deus''. E tenho me dedicado a divulgar os livros que vêm saindo no exterior (são três na França, dois na Argentina, dois na Itália, dois em Portugal, em novembro sai um no México e no ano que vem dois na Alemanha).


