Fragmentos de vida e morte
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quarta-feira, 30 de maio de 2001
Simone Mattos De Curitiba 
Depois de uma mini-temporada de sucesso em São Paulo, o espetáculo Fragmento B3, dirigida por Fernando Kinas, estréia hoje em Curitiba, no Guairinha. Sutilmente dividida em duas fases, a montagem traz ao público dois textos de importantes dramaturgos europeus: Samuel Beckett e Edward Bond.
Os primeiros 35 minutos são dedicados à Fragmento de Teatro II, de Beckett. Como sempre, sua obra é uma grande indagação sobre temas metafísicos, como vida, morte e religião.
Sem intervalo propriamente dito, apenas com modificações de cenário, o espetáculo continua com o texto Have I None (Nada Tenho), de Bond, escrito no ano passado e inédito no Brasil. Nos 70 minutos restantes, o público irá ao ano de 2077 com a obra que mostra personagens que perderam a capacidade de se relacionar entre si. A obra de Bond tem como principal característica revelar paradoxos da sociedade, permitindo a reflexão crítica.
Apesar de pouco conhecida no Brasil, a obra do dramaturgo é um caso antigo para Kinas. Em 1993, fiz uma tese sobre ele na pós-graduação em teatro na França, conta. O diretor morou quatro anos em Paris. A obra de Bond é muito montada na Europa, comenta.
Kinas explica que, além de escritor, ele é um grande debatedor de questões ligadas ao teatro e à política. Bond propõe um espetáculo de reflexão, reivindicando o teatro/cidadão e fugindo do besteirol e do mero entretenimento, explica.
E essa também é a proposta de Kinas. Ele explica que as duas fases do espetáculo se complementam, mas que é fundamental a intervenção do público. Normalmente não se exige isto dos espectadores, tudo vem muito pronto e mastigado, critica. Num geral, há uma banalização muito grande dos espetáculos.
Apesar disto, Kinas acredita que haja um público pronto para maiores desafios cênicos. A massa não é uniforme, diz. Há os irrequietos, os curiosos e os disponíveis intelectualmente para se relacionarem com os espetáculos. O diretor tem bastante experiência no assunto com suas montagens anteriores. Entre elas, R, Carta Aberta e Tudo o Que Você Sabe Está Errado.
No palco de Fragmento B3 estão os atores Marísia Bruning, Marcelo Munhoz e Lori Santos. Os figurinos são de Bia Maestri, a iluminação de Nadja Flugel, a sonoplastia de Demian Garcia e Fernando Kinas e a assistência de direção de Fábio Salvatti.
Os cenários são assinados por Fernando Marés. Na primeira fase, há duas mesas e uma grande janela, que simboliza a fonte de ligação do personagem com o mundo. A obra de Beckett tem como particularidade não abordar tempo ou espaço reais, justifica Kinas.
Para ilustrar o texto de Bond, o cenário é quase clínico. Luzes frias, brancas e poucos objetos revelam o mundo disciplinado e de poucos relacionamentos profetizado pelo dramaturgo inglês.
O espetáculo Fragmento B3 estréia hoje, às 21 horas, no Guairinha. A temporada vai até o dia 10/6 com apresentações de quinta a sábado, às 21 horas, e aos domingos, às 19 horas. Haverá outra temporada no Teatro José Maria Santos/ Teatro da Classe, de 18/6 a 8/7, nos mesmos horários. Após as apresentações de domingo, haverá sempre debate com os atores. O preço dos ingressos é R$ 5,00.


