Ranulfo Pedreiro
De Londrina
O Rei George III tinha sérios problemas, além das confusões mentais que lhe afligiam. Com 15 filhos, o soberano da Inglaterra não tinha um neto para perpetuar sua família no trono. Por isso mandou sua prole se entregar à reprodução. Uma verdadeira corrida marcou casamentos e nascimentos. A neta Vitória veio por último, mas as duas primas que chegaram antes morreram prematuramente.
A trajetória da rainha que marcou o século 19 é o tema de ‘‘Vitória’’, livro escrito pela francesa Anka Muhlstein que analisa a personalidade da soberana baseado em correspondências pessoais e em um minucioso diário que relata os seus 64 anos de reinado. Com 164 páginas, a obra foi lançada pela Companhia das Letras e traz um bom acervo de fotos, além das árvores genealógicas paternas, maternas e dos descendentes.
A neta de George III, gerada para a sucessão, assumiu o trono, governou por décadas, configurou boa parte do século 19 e ainda se envolveu nos conflitos que alavancaram o século 20, cujo início foi marcado pela Primeira Guerra Mundial e pela Revolução Russa. Vitória fez mais. Teve nove filhos, 35 netos e chegou a conhecer 37 bisnetos. A Grã-Bretanha estendeu seu poder com descendentes espalhados pela Grécia, Noruega, Rússia, Romênia, Suécia, Espanha, Dinamarca e Iugoslávia, entre outros países.
Depois da morte de seu marido Albert, a rainha se recolheu em um luto quase permanente, lembrando a memória do falecido e caracterizando sua era com uma rigidez de costumes, exaltando os conservadores hábitos rurais, ao mesmo tempo que conduzia a Inglaterra em plena Revolução Industrial.
Sua vida foi distante da serenidade que representou nos últimos anos. Apesar dos nove filhos, demonstrava pouca afeição. Assumia que seus descendentes eram feios e, muitas vezes, frívolos. Na infância, praticamente não teve contato com o mundo. A convivência da garota se limitava a alguns criados - a mãe era distante e o pai morreu pouco após o nascimento -, entre eles uma espécie de tutora rígida e pouco afetiva.
Mas seu conhecimento sociopolítico teve um mestre. Ainda na infância, se apegou ao tio Leopold, rei da Bélgica, com quem se correspondia constantemente. Leopold lhe dava dicas de ação, explicava a história e as razões de a Europa ser o que era, ressaltando o papel da Inglaterra.
Aos poucos, o tio fez o papel de pai. ‘‘Tenho muito medo de vos fazer rir com minhas visões políticas, mas gosto de dizer-vos o que penso e apenas vós podeis guiar-me’’, escreve Vitória, em uma carta de 30 de janeiro de 1837. Quando ficou claro que o rei estava morrendo, Leopold enviou uma pessoa de sua confiança, o barão Stockmar, que ajudou Vitória na transição para o trono. Em 20 de junho de 1837 o rei morreu.
Como rainha, enfrentou todos e fez prevalecer sua vontade, embora ainda demonstrasse certa insegurança nas reuniões de trabalho ou em atividades sociais. Mas a convicção de suas opiniões se impôs até mesmo ao adorado Tio Leopold. O rei da Bélgica já tinha lhe predestinado o casamento com Albert, primo de Vitória - por quem ela se apaixonou. A união se dá mais por amor do que por conveniência, ao contrário do que acontecia até então entre os nobres. E, por isso, ganhou aceitação popular.
Albert não era apenas um companheiro pessoal. No início do casamento, houve um confronto. Ambos procuraram espaço para atuar e Vitória fez questão de demonstrar quem mandava. Albert teve caráter para não se anular diante da personalidade da rainha, e tornou-se uma figura importante dentro de seu reinado. Equilibradas as tensões, os dois viveram bem, principalmente Vitória, que se demonstrou uma esposa feliz. Para Albert, no entanto, permaneceu uma imagem de melancolia, talvez porque sua família não lhe seguia nos interesses intelectuais.
Na década de 50 ambos se aproximaram de Napoleão III, e a amizade permaneceu após sua queda do trono francês. A admiração de Vitória por Napoleão - ele beirava a ousadia nos galanteios à rainha da Inglaterra - era grande. A amizade também se estendeu a Eugênia, esposa do imperador francês.
Se essa aproximação afetiva com a rainha era rara, também era muito difícil para Vitória aceitar a morte de alguém do seu círculo íntimo. Quando sua mãe, a duquesa de Kent, faleceu, Vitória entrou em depressão nervosa. Havia a necessidade de disfarçar qualquer distúrbio psicológico-emocional, pois a Inglaterra ainda se lembrava dos acessos de loucura do rei George.
Logo após a morte da duquesa, Albert teve a febre violenta que o levaria à morte aos 42 anos - 21 de casamento -, em 1861. A data virou um marco na conduta de Vitória. A partir de então, sua vida pública praticamente desapareceu. Ela se tornou conhecida como uma eterna viúva, e essa associação marcou o seu reinado e desembocou na chamada Inglaterra vitoriana, com todos os chavões que o termo representa.
No fim do século 19, Vitória assistiu em quase desespero ao desenrolar de fatos que envolveram diretamente seus parentes e seu reinado. O processo da unificação alemã e o crescimento do poder de Bismarck a assusta. Sua filha Vicky, que foi esposa do imperador alemão Frederico III, encontrava-se num beco sem saída vendo as relações com a Inglaterra esvanecerem diante do imperialismo alemão.
Mais além, na Rússia, Vitória assistiu agoniada ao caos político que o país se tornava. Sua preocupação se estendia a Alexandra, sua neta, esposa de Nicolau II, o czar que caiu com a revolução de 1917. Após décadas mantendo boas relações com vários países num reinado pacífico, espalhando seus descendentes pela Europa, a rainha viu o mundo desabando.
O livro de Anka Muhlstein é um trabalho minucioso, com vários trechos de cartas em que Vitória explicita suas preocupações. A autora não trata a rainha com endeusamento - e também não adota uma ótica feminista -, e constantemente aponta seus defeitos e contradições. O texto é fluente, mas Muhlstein cita com intimidade um número gigantesco de sobrenomes, dinastias e títulos de uma forma que às vezes confunde o leitor. Mas isso é um problema menor, que não compromete a qualidade do lançamento. ‘‘Vitória’’ é um livro que ajuda a destrinchar os acontecimentos do século passado e, principalmente, a entender o complicado século 20.
•‘‘Vitória’’, de Anka Muhlstein, Companhia das Letras, 164 páginas. Preço: R$ 25,00.Biografia da rainha Vitória traz detalhes sobre a mulher que comandou a Inglaterra por 64 anos e marcou o século 19
ReproduçãoRainha Vitória, em 1885: majestosa mesmo com uma vida pessoal conturbadaReproduçãoO casal Vitória e Albert, ainda jovem, durante a fase inicial do reinado. No detalhe, o retrato preferido da rainha: o belo Albert de armaduraReprodução

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