Fragmentos da dor
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de novembro de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Roberto Reitenbach/DivulgaçãoCuritiba verá na Casa Vermelha, a partir de hoje até o dia 30, a montagem de Woyzeck, um espetáculo visceral escrito no século passado por um jovem alemão, cuja atualidade é gritante. Georg Buchner, o autor, coloca com todas as letras e tintas, sua raiva ao poder constituído que aos poucos suga e mata a grande massa dos excluídos.
Como a desumanidade é um elemento sempre presente na História, o texto representa sempre um inquietante quadro contemporâneo. Woyzeck conta a história de Johann Christian Woyzeck, soldado raso, muito pobre, que é escolhido para ser cobaia de experiências científicas e militares. Sem ter como ou a quem se rebelar, acaba reduzido a uma vida vegetativa. E como tal é extirpado.
A violenta crítica ao sistema está com todas as letras em Woyzeck. Isso não quer dizer que a peça resvale no panfletarismo. Muito pelo contrário. O que Buchner ocupou-se em fazer foi colocar para fora sua indignação, como se tivesse pressa na revolta. De certa forma ele tinha razão no imediatismo - morreu de tifo aos 23 anos, e deixou ao mundo, além deste trabalho, os textos de A Morte de Danton e Leonce e Lena.
ElencoO papel principal é defendido por um dos mais respeitados atores da capital, Sérgio Medeiros. Com ele estão Fernanda Farah, Carla Berri, Altamar Cezar de Araujo, Cesar Almeida, Cássio Murilo e Márcio Abreu. A direção é de Edson Bueno e a trilha sonora de Chico Mello.
Apesar das montagens acontecerem em todo o mundo, e da importância que o texto representa na dramaturgia, não se sabe da existência de um texto completo de Woyzeck. Ele é um amontoado de fragmentos, e mesmo assim mantém a força da palavra e do pensamento.
Um espetáculo orgânico, rico em sons e movimentos, marcado pela ausência de tempo e de espaço, fala sobre a peça o diretor Edson Bueno. Apesar de todo o pessimismo Buchner aponta um caminho, o da dúvida. O ponto-chave está na coragem do autor não só em questionar a condição humana, mas a de tomar partido do oprimido. A fragmentação do texto não foi maquiada em sua concepção, que busca um trabalho visceral, forte e poético.
AngústiaUm dos maiores dramaturgos de todos os tempos, Buchner não foi compreendido em sua época nem nas imediatamente posteriores. Passaram-se quase 100 anos para que o teatro aceitasse sua obra. Ela não é digerível, feita apenas para distrair. Traz na essência a angústia da vida, a não-aceitação da injustiça social.
Mesmo com a pouca idade que ostentava, Georg Buchner era um ser pensante de enorme talento. As peças que escreveu exigiam, de forma implícita, o repensar da concepção teatral. Como agitador político ele incomodava os poderosos. E, além de agitador, foi filósofo e cientista. Estudou Medicina na Alsácia, região situada entre a França e Alemanha.
Antecipando-se no tempo, escreveu e distribuiu entre os camponeses o manifesto O Mensageiro Rural de Hessen. Isso aconteceu 14 anos antes do Manifesto Comunista, em Londres. O panfleto contendo profundas críticas acertou na mosca, mas azedou sua vida. Buchner recebeu mandado de prisão, foi perseguido e forçado a exilar-se. Morreu no exílio: mais precisamente em Zurique, na Suíça.
Woyzeck - de Anton Bruchner. Direção de Edson Bueno. Com Sérgio Medeiros, Carla Berri, Fernanda Farah, Márcio Abreu, Altamar César de Araújo, César Almeida, Cássio Murilo. Na Casa Vermelha (Largo da Ordem), em Curitiba, de 14 a 30 de novembro (de quinta a domingo), às 21h. Ingresos: R$ 10,00, R$ 8,00 (bônus) e R$ 5,00 (estudantes e classe artística).


