Fragmentos contemporâneos
Simone Mattos
De Curitiba
O renomado artista plástico Sérgio Ferro volta à sua cidade de origem, depois de três anos sem expor em Curitiba, com uma mostra grandiosa. Reconhecido internacionalmente e autor de um acervo que se espalha por museus da Europa e América do Sul, o artista acaba de trazer para Curitiba a sua produção mais recente. A exposição inaugura amanhã, na Simões de Assis Galeria de Arte.
A coletânea de cerca de 25 quadros é a continuidade do trabalho anterior, apresentado em Curitiba em 1996. Eles partem da mesma pesquisa e estudos, a obra atual apenas ganhou mais cores, explica. A técnica utilizada também continua a mesma: óleo sobre telas de linho.
Sua obra não segue um tema único ou específico, mas utiliza fortes referências religiosas, mitológicas e históricas. Quem observa as pinturas de Sérgio Ferro possivelmente estabelece uma rápida relação com as obras renascentistas, o que lhe valeu a qualificação, por parte da crítica francesa, de pintor neo-renascentista. O artista não nega tal tendência, mas afirma categoricamente que não há nenhuma espécie de saudosismo em suas obras. Elas são ultracontemporâneas, garante.
Ele apenas usa elementos antigos da pintura, mas sempre para falar de temas atuais, do homem moderno. Prova disto seria a fragmentação visível do corpo humano em suas telas. Atualmente, nenhum de nós é muito inteiro, temos vários aspectos, vários ângulos, não há mais uma personalidade una, como daqueles homens gregos, comenta.
Sua pintura pretende retratar as dissonâncias e rupturas da sociedade moderna, priorizando as partes ao invés do todo. Na opinião de um dos críticos de arte mais importantes da atualidade, o francês Pierre Restany, essa ambivalência estrutural motiva uma certa apreensão ao espectador.
É verdade que Sérgio Ferro tem o talento e o temperamento de um desenhista clássico. Deste modo, seria fácil para o observador recriar a integralidade do corpo a partir das proporções de um de seus membros. Mas o reconforto mental de uma reconstituição total não o satisfaz plenamente, afirma Restany.
De forma sutil, o artista faz críticas à arte contemporânea, que em sua opinião está muito intelectualizada. As instalações são muito pensadas e acabam se afastando do público. Na contramão, Ferro coloca como principal objetivo do seu trabalho a aproximação das pessoas. Minhas pinturas não são só massagem para os olhos, mas devem instigar a reflexão.
Sérgio Ferro nasceu em Curitiba, há 61 anos. Para ele, é uma alegria voltar a sua terra natal. Na última vez em que estive aqui, acabei redescobrindo a cidade, confessa. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduado em Museologia e Evolução Urbana, Ferro lecionou na década de 60 em universidades de São Paulo e Brasília.
Em 1972, transferiu-se para a França, onde reside até hoje. Após ter vivido vários anos em Paris e Grenoble, radicou-se em Grignan, vilarejo medieval na região da Provence, onde construiu sobre ruínas de pedras centenárias o seu atelier e residência.
Entre 1979 e 1980, Sérgio Ferro foi professor de Pintura na École de Beaux Arts de Grenoble. Em 1987, recebeu o Prêmio de Melhor Pintor do Ano, pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Em 1992, recebeu na França a comenda Chevallier des Arts et des Lettres. Atualmente, o curitibano é professor catedrático de História da Arte na École dArchitecture de Grenoble.
A exposição de Sérgio Ferro será inaugurada amanhã, às 20 horas, na Simões de Assis Galeria de Arte (Alameda Dom Pedro II, 155, fone 232-2315 e 233-3389). A exposição poderá ser vista até o dia 30 de novembro.Reconhecido internacionalmente, o artista plástico Sérgio Ferro volta a expor em Curitiba após três anos
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