Fragmentos
''Sim, agora eu sei que a sabedoria alcançável está nas frases simples que saem da boca das pessoas simples e é nelas que está nossa única esperança de salvação. A árvore cresce com simplicidade, seu avô viveu e morrerá com simplicidade. Esse é o segredo. Você tem razão, minha senhora, coragem e otimismo. Mas até que os fracos herdem a terra, até que se desfaçam os exércitos, até que o cordeiro possa pastar tranquilo ao lado do lobo e até que o garoto possa jogar bola com o crocodilo no rio, até que chegue esse tempo de felicidade e amor, continuarei a me expressar dessa forma tortuosa. E quando, ofegante, eu chegar ao topo da montanha, onde fincarei meu estandarte, vou me refazer e aproveitar. Isso, para mim, senhora, é um prazer maior do que o amor, do que a felicidade. Por isso não lhe quero nenhum mal que não seja igual ao mar quando faz os navios espatifarem-se contra as rochas, que não seja igual ao mal que o raio provoca quando abre uma árvore em duas metades.''
(Trecho de ''Tempo de Migrar Para o Norte'' de Tayeb Salih)
''Acabei mostrando ao Elegante uma série de cavalos traçados a lápis, como exercício, numa folha do pesado papel de Samarcanda. Ele pegou a folha com interesse e pôs-se a examiná-la ao luar, aproximando os olhos. Lembrei-lhe o que afirmavam os antigos mestre Shiraz e Herat: que para pintar um cavalo tal como ele é visto e desejado por Alá, é preciso passar cinquenta anos desenhando cavalos. Diziam também que o melhor desenho de cavalo deve ser feito na mais completa escuridão, porque o mestre autêntico, ao cabo de cinquenta anos de trabalho, estará totalmente cego mas sua mão terá memorizado o animal''.
(Trecho de ''Meu Nome é Vermelho'', de Orhan Pamuk)





