Fragmento O Cão, conto que integra A Pane - O Túnel - O Cão de Friedrich Dürrenmatt
''A garota se calou e olhou para mim como se quisesse pedir alguma coisa que não tinha coragem de dizer.
- Então ponha-o para fora, esse cão - objetei, mas a garota sacudiu a cabeça.
- Ele não tem nome, portanto não iria embora - disse ela em voz baixa. Percebeu que eu estava indeciso e sentou-se numa das cadeiras próximas à mesa. E assim sentei-me também, afinal.
- Você tem medo desse animal, então? - perguntei-lhe.
- Sempre tive medo dele - respondeu-me ela. - E no ano passado, quando minha mãe e meus irmãos vieram até aqui com um advogado para buscar a mim e meu pai de volta, também tiveram medo de nosso cão sem nome, que então se pôs de pé diante do pai e rosnou. Mesmo quando estou deitada na cama tenho medo dele, mais ainda do que normalmente. E agora tudo mudou. Você chegou e sou capaz de rir do animal. Eu sempre soube que você viria. Claro que não sabia como era sua aparência, mas sabia, isto sim, que você haveria de chegar, uma noite, com meu pai, quando o lampião já estivesse aceso e a rua mais silenciosa, vindo festejar comigo a noite de núpcias neste quarto meio subterrâneo, na minha cama, ao lado de tantos livros. Assim deitaremos juntos, homem e mulher, e do outro lado estará o pai, como uma criança na escuridão, e o grande negro cão guardará nosso pobre amor.''
(Fragmento ''O Cão'', conto que integra ''A Pane - O Túnel - O Cão'' de Friedrich Durrenmatt)





