Fragmento do conto ''Vida de Cão e Outras Vidas'', que integra ''Gozo Fabuloso'', de Paulo Leminski
Nas noites de frio, os cachorros latem. Latem porque a noite dói no coração do mundo. Latem para esquentar o nariz. Latem porque quem late seus males espanta. Latem em grego, em cachorrês, em latim. Latem porque a lua, alguém tem que fazer alguma coisa com a lua, aquela coisa imensa, redonda, aquela coisa branca enorme donde vem todo o frio que faz a madeira das casas estalar, malassombradas. Então os cachorros latem mais. E, depois, latir, comer e coçar, é só começar. Você começa a latir por algum motivo. Depois, não precisa de motivo. E você late, late, late, até ficar rouco. Há casos de cachorros que enlouquecem de tanto latir. Latir tem começo, mas não tem fim. Há casos de cachorros ótimos que latiram tanto, tanto, mas tanto, até sair sangue da garganta, latiram a noite inteira até a última gota de sangue, latiram até morrer como cantam as cigarras.





