Muitas vezes fingi acreditar em fantasmas e fingi acreditar festivamente, e agora que sou um deles entendo por que as tradições os representam desconsolados e insistindo em voltar para os lugares que conheceram quando foram mortais. A verdade é que retornam mesmo. Poucas vezes são ou somos percebidos, as casas em que vivemos mudaram e nelas há inquilinos que nem sequer sabem da nossa existência passada, nem a concebem: tal como as crianças, esses homens e mulheres crêem que o mundo começou com seu nascimento e não se perguntam se no chão em que pisam houve em outro tempo pisadas mais leves ou passos envenenados, se entre as paredes que os abrigam outros ouviram sussurros ou risos, ou se alguém leu em voz alta uma carta, ou apertou o pescoço de quem mais queria. É absurdo que permaneça o espaço e que o tempo se apague para os vivos, ou a realidade é que o espaço é o depositário do tempo, só que é silencioso e não conta nada. É absurdo que seja assim para os vivos, porque o que vem depois é o seu contrário, e para isso falta-nos treino. Quer dizer, agora o tempo não passa, não transcorre, não flui, mas se perpetua simultaneamente e com todos dos detalhes, e dizer ''agora'' talvez seja uma falácia.
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