''Os coveiros sustinham as cordas, escorregando no barro que atolava até os joelhos, esforçados em não deixar despencar o caixão de vez, rompendo a tampa e expondo as carnes magras do defunto. Minha mãe, única pessoa que verdadeiramente amara nosso tio, sofria com a infelicidade do enterro numa terça-feira de carnaval. A terra arrancada da cova se transformava em lama e com certeza não seria bastante para cobrir o morto, sinal de que o tio era unha-de-fome. Outro vexame para minha mãe, preocupada com os falatórios da cidade.
Indiferente à pressa dos coveiros, bêbados e risonhos, prima Lúcia cantava. Trêmulo de frio, eu não sabia a quem olhar e ouvir, ocupado em salvar da sujeira o meu único paletó. Viera arrastado por mamãe, temendo suas represálias amorosas. Meu irmão e meu pai se recusaram a vir, irritados com um bêbado que escolhera um dia de carnaval para morrer, quando tinha o ano inteiro para isso. Eu sofria perdas com o luto inesperado, deixava de sair no bloco de mexicanos que desfilava à tarde. Angustiavam-me o desperdício da fantasia com sombreiro e a idéia de jogar no meio da lama um ramalhete de rosas, que eu mesmo colhera no jardim de casa.''
()

mockup