Fragmento do conto ''Mexicanos'', que integra ''Livro dos Homens'' de Ronaldo Correa de Brito
''Os coveiros sustinham as cordas, escorregando no barro que atolava até os joelhos, esforçados em não deixar despencar o caixão de vez, rompendo a tampa e expondo as carnes magras do defunto. Minha mãe, única pessoa que verdadeiramente amara nosso tio, sofria com a infelicidade do enterro numa terça-feira de carnaval. A terra arrancada da cova se transformava em lama e com certeza não seria bastante para cobrir o morto, sinal de que o tio era unha-de-fome. Outro vexame para minha mãe, preocupada com os falatórios da cidade.
Indiferente à pressa dos coveiros, bêbados e risonhos, prima Lúcia cantava. Trêmulo de frio, eu não sabia a quem olhar e ouvir, ocupado em salvar da sujeira o meu único paletó. Viera arrastado por mamãe, temendo suas represálias amorosas. Meu irmão e meu pai se recusaram a vir, irritados com um bêbado que escolhera um dia de carnaval para morrer, quando tinha o ano inteiro para isso. Eu sofria perdas com o luto inesperado, deixava de sair no bloco de mexicanos que desfilava à tarde. Angustiavam-me o desperdício da fantasia com sombreiro e a idéia de jogar no meio da lama um ramalhete de rosas, que eu mesmo colhera no jardim de casa.''
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