Fragmento do conto ''Ela Era Doce e Humilde''
Fragmento do conto ''Ela Era Doce e Humilde'' de Fiodor Dostoiévski, traduzido por Valdemar Cavalcanti e que integra o livro ''Contos Russos''
''Não consegui dormir. Como é que poderia fazê-lo, se sinto marteladas na cabeça?! Queria poder acostumar-se a tudo isso, a toda essa lama. Oh! a lama! De que lama eu a tirei então? Ela devia ter compreendido, devia ter sabido apreciar a minha atitude! E também certas idéias me agradavam, como esta, por exemplo: eu tinha 41 anos, e ela 16. Eis o que me encantava. Esta sensação de desequilíbrio é qualquer coisa voluptuoso, de muito voluptuoso.
O mais difícil é começar. Quando nos queremos desculpar, sempre deparamos com inúmeras dificuldades. Reparem: a mocidade, por exemplo, despreza o dinheiro. Eu me apeguei a ele, edifiquei toda a minha vida sobre o dinheiro. E de tal modo insisti nisso que ela foi se tornando cada vez mais suplicante. Ela abria bem os olhos, ouvia, olhava e calava-se. Vejam: a mocidade é magnânima. É magnânima e exaltada, mas falta-lhe paciência. Por menos que a contradigamos, ei-la a desprezar-nos. E eu queria generosidade, queria incultar-lhe generosidade no coração, fazendo-o com intenções nobre, não é verdade? Escolherei um exemplo trivial: como fazer para explicar a uma pessoa de tal natureza a existência de minha casa de empréstimos sobre penhores? Não preciso dizer que não abordei o assunto de modo direto; do contrário, dar-lhe-ia a impressão de pedir-lhe perdão, quanto ao meu negócio. Recolhi meu orgulho e falei-lhe em voz surda.''
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