Fragmento do conto ''A Viagem de Inverno'' que integra o livro ''A Coleção Particular'', de Georges Perec
Eram quatro horas da manhã quando Vincent terminou a leitura da ''Viagem de Inverno''. Havia localizado cerca de trinta empréstimos. Certamente haveria outros. O livro de Vernier parecia uma prodigiosa compilação dos poetas do fim do século XIX, um centão desmesurado, um mosaico em que quase todas as peças eram obras de outrem. Mas no exato momento em que se esforçava por imaginar esse autor desconhecido que decidira extrair de livros alheios a própria matéria de seu texto, quando tentava figuras até o fim esse projeto insensato de admirável, Vincent sentiu nascer em seu íntimo uma suspeita assustadora: acabava de lembrar que, ao tomar o livro da estante, havia maquinalmente observado a data.Talvez se tivesse enganado, mas achava que havia lido ''1864''. Verificou a data, o coração batendo. Lera corretamente: isso queria dizer que Vernier havia ''citado'' um verso de Marllamé com dois anos de antecipação, plagiado Verlaine dez anos antes, escrito versos de Gustave Kahn cerca de um quarto de século antes dele! Isso queria dizer que Lautréamont, Rimbaud, Corbière e outros mais não passavam de copistas de um poeta genial e desconhecido que, numa obra única, soubera recolher a própria substância de que se nutririam em seguida três ou quatro gerações de autores!
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