Fragmento do ''A Legenda de São Julião Hospitaleiro'', que integra ''Três Contos'' de Gustave Flaubert
''Seu pai e sua mãe estavam a sua frente, estendidos de costas, com um buraco no peito; e suas faces, de uma suavidade majestosa, pareciam guardar algum segredo eterno. Respingos e placas de sangue se espalhavam sobre sua pele branca, nas roupas, na cama, pelo chão, em todo um Cristo de marfim suspenso na alcova. O reflexo escarlate do vitral, agora ensolarado, iluminava essas manchas e projetava outras mais em todo o aposento. Julião foi até os dois mortos, dizendo e querendo acreditar que aquilo não era possível, que ele se enganara, que por vezes há semelhanças inexplicáveis. Por fim, inclinou-se levemente para olhar o velho bem de perto; e percebeu, entre as pálpebras mal cerradas, uma pupila que o queimou como um fogo. Depois, foi até o outro lado da cama, ocupada pelo outro corpo, cujos cabelos brancos escondiam uma parte do rosto. Julião passou os dedos por seus cachos, levantou sua cabeça; e fitava-a, sustentando-a com o braço enrijecido, enquanto a outra mão a iluminava com a tocha. Algumas gotas, porejando no colchão, caíram uma a uma sobre o piso.
No fim do dia, apresentou-se à esposa; e, com uma voz diferente da sua, ordenou-lhe primeiro que não respondesse, não se aproximasse, não olhasse, e que seguisse, sob pena de danação, todas as suas ordens, que eram irrevogáveis.''





