Fragmento de ''Vista do Rio'' de Rodrigo Lacerda
''Há quem diga que a vida vale não pelo que se vive, mas pela forma como é vivida. Sendo assim, uma biografia minimalista como a que eu vinha construindo poderia ser de grande profundidade. O sedentário poderia ter uma trajetória existencial tão rica quanto o aventureiro, o casto e o devasso idem, o pintor e o cego idem idem, e por aí vai. Embora achasse esta uma bela idéia, e quisesse muito aplicá-la na vida, não conseguia sentir que fosse verdadeira. Para mim, era uma racionalização atraente, mas um tanto falsa. Mesmo usando, constrangido por circunstâncias externas e internas, a máscara de pessoa equilibrada, eminentemente contemplativa, sentia latente uma ambição desmedida que me humilhava, uma inquietação, uma ânsia de agir, de fazer, de construir um futuro cheio, de vida, de experiências, de permanente e simultânea excelência artístico-ético-sexual, ou sexo-ético-artístico, ou, se tudo desse errado, pelo menos ético-alguma coisa. Diante de tanta cobrança, diante de tantas limitações, qualquer possibilidade de pacificação, é claro, ficava completamente afastada. Era a minha angústia.''
(Fragmento de ''Vista do Rio'' de Rodrigo Lacerda)





