''Fiquei sentado no sofá, por um bom tempo, sentindo o sangue pulsar nas têmporas. E então tudo começou a ficar claro. Não basta você ter coisas, você pode perder o tempo todo, a cada minuto, tudo pode acabar. É isso o amor. Uma coisa prestes a acabar. Marie, que fora minha, já não me pertencia, nossa associação, nosso pacto, ela havia jogado no lixo. Compreendi perfeitamente a situação. Marie estava me traindo. Foi exatamente naquele momento que passei a pensar nesses termos. Até ali, o que eu sentia era um sofrimento difuso, demorou para que a palavra me ocorresse, resumindo tudo, com toda a sua força. Traição. Antes perder, pensei. Imaginá-la morta foi menos doloroso. É curioso como as idéias se formam na cabeça dos homens. Eu sempre pensava nisso quando lia notícias horríveis nos jornais. Será, eu pensava, será que isso aconteceu simplesmente, sem planos, será destino? Será que os fatos ficam todos acumulados no futuro e, não importa o que você faça, um dia eles entram na sua vida? Como acontecem as tragédias? Acontecem assim. As idéias de repente, surgem na nossa cabeça. São primeiro um fiapo, um quase-nada, e você tenta não pensar naquilo, mas você pensa naquilo o tempo todo. Tudo estava bem claro, naquele momento. Eu estava cheio de ódio. E pensava em rivais, em juras, coisas secretas. E punhais. Facas. Venenos. Cordas. Golpes.''

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