Odeio as pessoas que confiam em mim: quando você confia em alguém traça um limite, essa confiança é uma grossa parede que, supõe-se, você não deve derrubar, mas nada é mais tentador. É como uma torta de maça na mesa de um orfanato, como uma garota pelada no camarim de um boxeador, como uma nota de cem dólares na saída do cinema. Quando você confia em alguém desperta seu diabinho transgressor. Confiar é sujo, é dizer ao outro: você não pode me trair porque isso vai me matar. Isso não cabe em pessoas autênticas, como diabos posso jurar lealdade se isso já seria trair minha própria natureza? Deixar sua confiança numa pessoa é obrigá-la a respeitar um código, e se você confia nela para que precisa que ela jure, para que encostá-la na parede e exigir promessas? Impor condições me dá asco.(...)
A água quebra contra a rocha porque a rocha não tem asas e não pode ir para lado nenhum. É certo que existem aves com asas enormes mas incapazes de alçar vôo, mas o destino da rocha é muito pior, ao lado dela as aves do quintal são como deuses. Quando voou da rocha, mamãe tentou segui-lo. Mamãe bateu suas enormes asas para voar atrás de você, mas, como todos sabem, as mães são aves de quintal, suas asas servem para cobrir as crias, perto do pó e longe do céu. Você é uma imagem feita de ar e mamãe, uma velha galinha cacarejando no pátio. A lembrança sempre vence a realidade porque a lembrança não tem cheiro nem gosto, não ocupa espaço nem grita, no entanto uma lembrança é uma coisa que você não tem. A água quebra contra a rocha e mamãe cada dia tem menos penas, cada dia se mexe menos.

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