Fragmento de ''Sábado'' de Ian McEwan
Dá um passo na direção do CD, em seguida muda de idéia, pois sente a pressão, semelhante à gravidade, do noticiário da tevê que se aproxima. É uma condição da época, essa compulsão para ver como anda o mundo e unir-se à maioria, a uma comunidade de angústia. O hábito ficou mais forte nos últimos dois anos; estabeleceu-se uma nova escala de valores de notícias, por conta de cenas monstruosas e espetaculares. A possibilidade de se repetirem é um fio que une os dias. A tese do governo - de que um ataque a uma cidade européia ou americana é algo inevitável - não é apenas uma negação de responsabilidade, é uma promessa atordoante. Todos têm medo disso, mas também uma aspiração mais sombria, na mente coletiva, uma ânsia de autopunição e uma curiosidade sacrílega. Assim como os hospitais têm os seus planos em tempo de crise, as redes de tevê ficam a postos para transmitir as notícias, e o público aguarda. Maior, mais gritante, da próxima vez. Por favor, não deixe que aconteça. Mas, mesmo assim, deixe que eu veja tudo, na hora em que estiver acontecendo, de todos os ângulos, e deixe que eu esteja entre os primeiros a saber.
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