Fragmento de ''Por Um Fio'' de Drauzio Varella
Recomendei a ela que chamasse a enfermeira para aplicar nova dose de morfina ao menor sinal de que as dores pudessem retornar. Ela prometeu que o faria e acrescentou:
- Vá com Deus, doutor. Seja abençoada a sua profissão que Deus criou para aliviar o sofrimento da gente.
Por vergonhoso que possa parecer, dez anos depois de formado, nunca me havia ocorrido refletir sobre a finalidade de minha profissão. Para que serve a medicina? Se me perguntassem, provavelmente teria respondido ingenuamente que ela existia para curar pessoas, ignorando diabetes, hipertensão, reumatismo, os derrames cerebrais e tantas outras enfermidades crônicas. Pior, sem levar em conta sequer os doentes incuráveis que me procuravam.
Fiquei com raiva de mim mesmo e de todos os médicos onipotentes, que se atribuíam o papel exclusivo de salvadores de vidas, pretensão equivocada da razão de existirmos como profissionais, justamente como havia acabado de lembrar com tanta simplicidade aquela senhora.
Tive vontade de percorrer as faculdades de medicina para dizer aos alunos, no primeiro dia de aula, o que nunca ouvira de meus professores: na medicina, curar é um objetivo secundário, se tanto. A finalidade primordial de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano.





