''Poe inventa um sujeito extraordinário, o detetive, destinado a estabelecer a relação entre a lei e a verdade. O detetive está aí para interpretar algo que aconteceu, do qual restam certos sinais, e pode cumprir essa função porque está fora de qualquer instituição. O detetive não pertence ao mundo do delito nem ao mundo da lei; não é um policial e tampouco um criminoso (ainda que tenha traços deste último). Duplin, Sherlock, Marlowe, o detetive particular está aí para fazer ver que a lei, em seu lugar institucional, a polícia, funciona mal. E ao mesmo tempo o detetive é o derradeiro intelectual, mostrando que a verdade já não está nas mãos dos sujeitos puros do pensar (como o filósofo clássico ou o cientista), mas deve ser construída em situação de perigo, função que passa a encarnar. Vai dizer a verdade, vai descobrir a verdade que é visível, mas que ninguém viu, e vai denunciá-la.
Surge aqui um paradoxo que o gênero (e Poe mais que ninguém) resolve de um modo exemplar: como falar de uma sociedade que por sua vez nos determina, de que lugar externo julgá-la, se estamos dentro dela? O gênero policial dá uma resposta que é extrema: o detetive, ainda que faça parte do universo que analisa, pode interpretá-lo porque não tem relação com nenhuma instituição, nem sequer com o casamento. É solteiro, é marginal, está isolado. O detetive não pode incluir-se em nenhuma instituição social, nem mesmo a mais microscópica, a célula básica da família, porque, uma vez incluído, não poderá dizer o que tem de dizer, não poderá ver, não terá distância suficiente para perceber as tensões sociais. Há um elemento alheio a toda instituição no sistema interpretativo que o detetive encarna: ele está fora, e muitos de seus traços marcam essa distância, suas manias são formas de sublinhar a diferença.
Na tragédia, o sujeito recebe uma mensagem que lhe é dirigida, interpreta-a mal, e a tragédia é o percurso dessa interpretação. No policial, quem interpreta pôde se desligar e fala de uma história que não é a dele, se ocupa de um crime e de uma verdade da qual está à parte, mas na qual se acha estranhamente implicado. Parece-me que a psicanálise tem algum parentesco com essas formas.''
(Fragmento de ''Os Sujeitos Trágicos'', ensaio que integra ''Formas Breves'' de Ricardo Piglia)

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