Acabei de enterrar uma estrela!
Foi assim que o pastor Zero se anunciou junto à cama de sua esposa, Mwadia. Lá fora, espreitavam os primeiros sinais de luz. A mulher, ainda emergindo do sono, sorriu e disse:
Venha, marido, venha que eu lhe apronto um banho.
Ele acenou com a cabeça, como se estivesse bêbado. Quando Mwadia se aprontava para o caminhar por entre penumbras, o pastor deu um passo atrás dela e murmurou:
Não me toque! Não me toque que tenho as mãos em fogo.
Só então a esposa reparou no brilho que emanava das mãos fechadas de Zero. Lentamente, ele entreabriu os dedos, um por um, como se desfolhasse uma flor. Mwadia levou o braço ao rosto, incapaz de enfrentar a reverberação. A sua voz esgueirou-se num gemido:
Meu marido, me confesse: você já morreu?
Não, tudo isto vem da estrela, mulher.
Mas qual estrela?
A estrela que enterrei no nosso quintal.
Mwadia espreitou, receosa, pela janela. O amanhecer costumava ser um beijo no vidro de sua casa. Naquela manhã, porém, a luz era mais tensa que intensa. Foi então que ela viu a pá, espetada junto a um amontoado de areia. Enterrada na vertical, cumpria o serviço de cruz em campa rasa.
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