Fragmento de ''O Mestre de Petersburgo'' de J. M. Coetzee
''Ninguém se mata, Matryosha. Você pode colocar sua vida em perigo, mas não pode realmente se matar. É mais provável que Pável tenha se colocado em perigo, para ver se Deus o amava suficientemente para salvá-lo. Ele fez uma pergunta a Deus - O Senhor me salvará? -, e Deus respondeu. Deus disse: Não. Deus disse: Morra.''
''Deus o matou?''
''Deus disse não. Deus poderia ter dito sim, sim, eu o salvarei. Mas preferiu dizer não.''
''Por quê?'', ela sussurra.
''Ele disse a Deus: se o Senhor me ama, salve-me. Se o Senhor estiver aí, salve-me. Mas só houve silêncio. Então ele disse: eu sei que o Senhor está aí, eu sei que está me ouvindo. Aposto minha vida como irá me salvar. E assim mesmo Deus nada respondeu. Então ele disse: por mais que o Senhor fique em silêncio, sei que está me escutando. Vou fazer minha aposta agora! E atirou-se na aposta. E Deus não apareceu. Deus não interveio.''
''Por quê?'', ela murmura novamente.
Ele sorri um sorriso feio, contorcido, barbado.
''Quem sabe? Talvez Deus não goste de ser tentado. Talvez o princípio de que ele não deve ser tentado seja mais importante para ele do que a vida de uma criança. Ou talvez o motivo seja simplesmente que Deus não escuta muito bem. Deus já deve estar muito velho, tão velho quanto o mundo, ou até mais. Talvez tenha o ouvido fraco e a vista também, como qualquer velho.''
Ela está derrotada. Não tem mais perguntas. Agora está pronta, ele pensa. Ele dá tapinhas na cama ao seu lado.
Baixando a cabeça, ela se aproxima. Ele a envolve com o círculo de seu braço; pode senti-la tremer. Afaga-lhe os cabelos, as têmporas. Finalmente ela cede e, apertando-se contra ele, fechando os punhos sob o queixo, soluça abertamente.





