Fragmento de ''O Mal de Montano'', de Enrique Vila-Matas
''Já não sou o rígido doente da literatura de antes. Ou, melhor dizendo: começo a não entender por que devo fazer apostolado da leitura. Melhor seria que cada iletrado deste país fizesse o que bem quisesse. Por outro lado, odeio quase a humanidade toda, e passo o dia pondo bombas mentais em todos os homens de negócios que editam livros, nos diretores de departamento, nos líderes do mercado, nos equilibristas do marketing e nos bacharéis em economia. Ponho bombas mentais tanto nesses como nos disciplinados gregários e no resto do mundo em geral. Pergunto-me pois por que razão deveria dar-lhes uma mão e recomendar-lhes que lessem livros se só lhes quero mal, se só quero que aumente sua estupidez e se espatifem de uma vez por todas viajando no trem da ignorância, que pagamos todos mas que algum dia eles pagarão muito caro indo ao poço sem fim do fracasso, com a música em outra parte, em uma indústria diferente. E mais, detesto-os tanto que me encantaria vê-los obrigados a ler, que de algum lugar saísse um pérfido decreto, uma drástica ordem de aproximar-se do livro, e de imediato as cidades deste país se converteriam em bibliotecas de forçada, caótica e mentecapta atividade intelectual.''





