Fragmento de ''O Inocente'' de Ian McEwan
''Foi ignorância ou inocência que o fez pensar que as batidas cada vez mais aceleradas do coração dela contra seu braço eram sinal de excitação, ou que os olhos extremamente arregalados, as minúsculas pérolas de umidade que despontavam em seu lábio superior, a dificuldade que ela enfrentava para mover a língua e repetir as palavras, tudo isso era para ele? Abaixou a cabeça, aproximando-a da dela. O que ela dizia vinha emoldurado pelo sussurro mais discreto que se possa imaginar. Seus lábios roçavam-lhe a orelha, as sílabas chegavam-lhe envoltas em peliça. Ele abanou a cabeça. Escutou sua língua se desgrudar e tentar novamente. O que finalmente a ouviu dizer foi: 'Tem alguém dentro do guarda-roupa'.
Então seu coração se pôs a correr como o dela. Suas caixas torácicas tocaram-se e eles podiam sentir, mas não ouvir, o estrépito arrítmico, tal qual um tropel de cavalos. Apesar dessa dispersão, ele aguçou os ouvidos. Havia um carro se afastando, havia alguma coisa no encanamento e por trás disso nada, nada a não ser o silêncio e a indissociável escuridão e o rangido do silêncio apressadamente auscultado. Repassou tudo de novo, esquadrinhando as frequências e observando o semblante dela, à espreita de algum sinal.
Ali, porém, os músculos já estavam todos retesados e ela beliscava-lhe o braço. Ela continuava a ouvir, estava atraindo sua atenção para aquilo, obrigando-o a tentar para a faixa de silêncio, a espreita seção onde se achava aquela coisa. Dentro dela, ele havia encolhido até virar um nada. Eram pessoas distintas agora. No ponto em que se tocavam, seus ventres estavam úmidos. Estaria ela bêbada, teria enlouquecido? Qualquer das duas alternativas teria sido preferível. Ele só ergueu a cabeça, esforçando-se ao máximo, então ouviu, e soube que estivera ouvindo o tempo todo.''





