''Então, numa tarde, ela viu o marido com outra mulher. Foi um choque, desses que lançam corpos na água ou fazem carnes se desprenderem de repente, em blocos de sangue. Não foi o fato de não supor ser ele capaz daquilo que a espantou. Na verdade o que lhe roeu as estranhas no momento em que o avistou foi a certeza de que as possibilidades humanas estão dispostas diante de todas as pessoas como um leque de cartas sobre a mesa. Seguir uma de cada vez é a única restrição. Cada destino é a abolição de outros. Sair de um é forçosamente entrar num segundo, num terceiro, num quarto, assim por diante. Há meses seu marido vinha frequentando um quarto que não era o seu. Um destino que, longe dela, Virgínia, conferia a ele um novo significado. Era como se no corpo da amante ele trocasse de corpo, de mente, de vida. O desejo de muitas vidas, quase no fundo todos os homens têm e alimentam em teorias místicas, ganhando assim realização e substância. Virgínia enxergou isso, e principalmente o sentiu em seus poros tomados de poeira, abertos de sol.
De noite, a súbita consciência de revolta da torre da Lapa a incentivou a falar com o marido, a pedir satisfações, lhe dizer duas ou três palavras de rancor, de fúria. Entrou no banheiro quando ele estava tomando banho, pois sabia que isso o irritava, e foi logo dizendo que sabia de tudo, que o vira naquela tarde com a mulher. Em silêncio, sem demonstrar nenhum abalo, ele acabou o banho, enxugou o corpo e se vestiu. Sei semblante tinha uma aspecto neutro, estratégico, quase jornalístico. Pouco mais tarde, eles sentaram no sofá da sala, lado a lado. O vulcão exausto dos anos despejava sobre eles uma lava já fria.
- Ela não é minha amante. Você é minha amante...

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