Fragmento de ''O Furgão'', de Roddy Doyle
Não havia descanso, um lugar onde ela pudesse deitar e esquecer. Gritos e brigas, ódio e tosse, a tosse - a morte pairando cada vez mais perto. E os cômodos atrás dos degraus ficavam cada vez menores e mais escuros e mais vis. Caíamos cada vez mais. As paredes desmoronavam e fechavam o cerco sobre nós. Seus bebês morriam e se juntavam às estrelas. Cômodos sem janelas, chão do qual brotavam baratas. Chorávamos ao sentir o cheiro da comida nojenta dos outros. Chorávamos com a dor que queimava nossas feridas. Chorávamos por braços que nos protegessem. Chorávamos por calor e por meias, por leite, por luz, por um fim à coceira que não nos deixava dormir de noite. Chorávamos por causa do piolhos que brilhavam e se aninhavam, zombando de nós. Chorávamos para que nossa mãe viesse nos salvar. A coitada da mamãe. Finalmente, finalmente, fomos arrastados para nosso último cômodo, um subsolo, o mais baixo a que podíamos afundar, um buraco que bocejou e nos engoliu.
(Fragmento de ''Uma Estrela Chamada Henry'', de Roddy Doyle)
Estavam chegando lá.
Havia mais do que limpeza pura e simples do furgão, é claro. Tinham que se tornar cozinheiros antes do fim do mês, o que era uma piada das grandes. A primeira vez que ele fritou batata, em casa, pôs muito óleo na panela e quase botou fogo na porra da cozinha. Cagou-se de medo. Mas Verônica era uma boa professora, muito paciente; até deixou-o fazer o jantar um dia, o que era muito legal da parte dela. Mas foi um desastre. Ela mostrou-lhe como descascas batatas sem descascar também a pele dos dedos, como descascar na direção contrária do corpo, para evitar de enfiar a faca no próprio peito.
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