Fragmento de ''O Cavalo Perdido e Outras Histórias'', de Felisberto Hernández
Foi numa noite em que eu estava triste e já estava deitado, e as coisas em que pensava iam se aproximando do sono, quando comecei a sentir a presença das pessoas como móveis que mudassem de posição. Eram móveis que além de poder estar quietos se moviam; e moviam-se por vontade própria. Eu queria bem aos móveis que estavam quietos, e eles não me exigiam nada; mas os móveis que se moviam não só exigiam que eu gostasse deles e lhes desse um beijo, mas tinham outras exigências piores; e, além do mais, abriam suas portas de repente, e deitavam tudo em cima da gente. Mas nem sempre as surpresas eram violentas e desagradáveis; algumas surpreendiam com lentidão e silêncio, como se fossem se abrindo uma gaveta por debaixo e começassem a mostrar objetos desconhecidos. Havia também outras pessoas que eram móveis fechados, mas tão agradáveis, que se a gente fazia silêncio, sentia que tinham música por dentro, como instrumentos que tocassem sozinhos. O piano era uma boa pessoa. Eu me sentava perto dele; com uns poucos dedos meus apertava muitos dos seus, fossem brancos ou pretos; em seguida gotas de sons saíam dele; e, combinando os dedos e os sons, nós dois ficávamos tristes.
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