Fragmento de ''Noite do Oráculo'' de Paul Auster
''Esse escritor publicou em livro um longo poema narrativo que girava em torno da morte por afogamento de uma criança pequena. Dois meses depois que o livro foi lançado, o escritor e sua família foram passar férias na costa da Normandia e no último dia de viagem sua filha de cinco anos entrou na água agitada do Canal da Mancha e morreu afogada. O escritor era um homem racional, uma pessoa conhecida pela lucidez e acuidade mental, mas culpou o poema pela morte da filha. Perdido nas garras da tristeza, convenceu-se de que as palavras que escrevera sobre um afogamento imaginário tinham provocado um afogamento real, que uma tragédia ficcional provocara uma tragédia real no mundo real. Como consequência, esse escritor imensamente dotado, esse homem que havia nascido para escrever livros, fez voto de nunca mais escrever. Tinha descoberto que palavras podem matar. Palavras podem alterar a realidade e portanto eram perigosas demais para que um homem que as amava acima de tudo pudesse confiar nelas. Quando John me contou essa história, a filha havia morrido fazia vinte anos e o escritor ainda não quebrara o juramento.''





