Fragmento de ''Junta-Cadáveres" de Juan Carlos Onetti
A vida que importa é a dos adultos e não tem nada a ver comigo; se algumas vezes consigo mover-me ali sem incômodo, quase convincente, é à custa de memória, de imitação, de copiar atitudes, cujo sentido profundo me é impossível formular. Eu só quero coisas, novidades concretas, absurdos que me façam diferente; quero que me olhem, quero ser o escândalo, quero que lhes seja impossível me confundirem com eles mesmos, ter-me e pensar-me como uma igual. Não me interessa um passado, o amanhã é sempre um território alheio. Tem que ser agora, cada vez agora e já, já. Só gosto das palavras quando se convertem em coisas; todas estas palavras do velho Lanza, todas as do padre, as do colégio, dos amigos, quase todas as que escuto são moles como babas, caem, batem, brilham, se secam e não estão mais. Também eu as digo e me desgasto dizendo-as e as babas alheias e as minhas próprias só servem para me gastar. Gastam meu tempo; meu tempo em solidão e em silêncio, não existe, não se gasta.
(Fragmento de ''Junta-Cadáveres]] de Juan Carlos Onetti)





