Fragmento de ''História do Olho'', de Georges Bataille
''Do começo ao fim da corrida, ela permanecia angustiada, com pavor que no fundo manifestava um insuperável desejo de assistir a algum desses monstruosos golpes de chifres que o touro, num galope incessante e colérico, desfecha às cegas no vazio dos tecidos coloridos, projetando o toureiro no ar. Aliás, é preciso dizer que, quando o temível animal passa e torna a passar pela capa, sem descanso e sem trégua, a um dedo do corpo do toureiro, experimenta-se um sentimento de projeção total e repetida, característico do jogo do amor. A proximidade da morte é sentida da mesma forma. Essa sucessão de passes felizes é rara e desencadeia na multidão um verdadeiro delírio; tamanha é a tensão dos músculos da perna e do baixo-ventre que, nesses momentos patéticos, as mulheres gozam.
A propósito das touradas, Sir Edmond contou um dia a Simone que, ainda havia pouco tempo, era costume entre os espanhóis viris, por vezes toureiros amadores, que pedissem ao porteiro da arena os colhões grelhados do primeiro touro. Mandavam servi-los em seus lugares, isto é, na primeira fila, e os comiam vendo morrer o touro seguinte. Simone demonstrou o mais vivo interesse por essa história e, como no domingo seguinte íamos assistir à primeira grande corrida do ano, pediu a Sir Edmond os colhões do primeiro touro. Porém, fazia uma exigência, queria-os crus.''
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