Fragmento de ''Cabeça a Prêmio'' de Marçal Aquino
O primeiro tiro atingiu Carlito no peito. O susto e o impacto, uma fração de segundos depois, fizeram com que caísse da cadeira.
Munição pesada.
O radialista viu as pernas do homem contornando a mesa e ergueu os olhos. Um rosto sem nenhuma expressão. Quase metálico, como a voz. Carlito levantou um braço, quis dizer que não era justo, não naquele momento. Mas só teve forças para murmurar Flávia. Já estava morto quando tomou o segundo tiro.
Por algum tempo, o atirador se manteve imóvel, atento aos ruídos. Então, sempre com gestos rápidos, guardou o revólver e fechou a pasta. Antes de sair da sala, olhou para o cadáver no chão - a mancha de sangue na camisa crescia lentamente. Era o primeiro homem que matava.
Ele desceu a rua em direção à praça, onde deixara o carro estacionado. Caminhava tranquilo, sem pressa. Alguém voltando do trabalho fora de hora.
A padaria da esquina estava com as portas de aço pela metade. Em frente, dois rapazes de jaleco azul e calças arregaçadas lavavam a calçada. Um deles assobiava. Não viram quando ele passou.
Colocou a pasta no porta-mala do carro e olhou a praça deserta. Nascera numa cidade parecida com aquela. Não tinha saudades. E nunca a visitava, embora seu pai ainda estivesse vivo, até onde ele sabia.
Entrou no carro e dirigiu devagar pelas ruas estreitas e muitos limpas. O trabalho fora feito sem problemas e isso o deixava satisfeito. Não sentira nada na hora. Nem medo, nem pena. Um trabalho como outro qualquer, conforme Mirão havia falado quando o contratou. Lembrava-se da frase:
Você vai ver, Brito, dá até um certo prazer.
Nisso, Mirão estava errado. Não sentira nenhum prazer.





