Fragmento de ''Atire no Dramaturgo'', de Mário Bortolotto
O Cara entrou em casa, ainda movido por alguma espécie de combustão, andou a esmo pelo pequeno espaço do apartamento, sendo estapeado na cabeça por uma puta louca de rapo pontudo, tomou toda a água da garrafa e depois enfiou a cabeça sob a torneira, na esperança de expulsar qualquer pensamento selvagem, mas a puta continuava a rir de sua cara. Só sentia a perna ranger como um velho navio em alguma tempestade. Nada que já não estivesse sentido antes. Nada que Não fosse desrespeitosamente familiar. Ouviu os gritos vindo da rua, as sineres de polícia e toda a turbulência esculpida por Deus num desses dias de trabalho forçado. Então percebeu o veneno disparando em sua corrente sanguínea. Achou que isso não teria importância se não sentisse também a cabeça sendo chutada e os olhos saindo pelas órbitas. E o antídoto não era uma garrafa de doze anos. Não era o sorriso de uma musa perfeita. Quando a tela apareceu na sua frente, e seus dedos espancaram o teclado com violência e determinação, entendeu toda a poesia, compreendeu a palavra ''destino'', e finalmente sentiu paz (ou algo do tipo).
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