Fragmento de ''As Intermitências da Morte'' de José Saramago
Sem o lenço, a morte perdeu outra vez altura, terá, quando muito, em medidas humanas, um metro e sessenta e seus ou sessenta e sete, e, estando nua, sem um fio de roupa por cima, ainda mais pequena nos parece, quase um esqueletozinho de adolescente. Ninguém diria que esta é a mesma morte que com tanta violência nos sacudiu a mão do ombro quando, movidos por uma imerecida piedade, a pretendemos consolar do seu desgosto. Realmente, não há nada no mundo mais nu que um esqueleto. Em vida, anda duplamente vestido, primeiro pela carne com que se tapa, depois, se as não tirou para banhar-se ou para actividades mais deleitosas, pelas roupas com que a dita carne gosta de cobrir-se. Reduzido ao que em realidade é, o travejamento meio desconjuntado de alguém que há muito tempo tinha deixado de existir, não lhe falta mais que desaparecer.
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