Fragmento de ''Achei Que Meu Pai Fosse Deus''
''O que lembro mais é do sr. Bernhauser. Era nosso vizinho dos fundos. Era especialmente mau e hostil com as crianças, mas era grosseiro também com os adultos. Ele tinha uma ameixeira junto à cerca dos fundos. Se as ameixas estivessem do nosso lado, podíamos pegá-las, mas Deus nos livre se cruzássemos a linha da cerca. Era um inferno. Ele gritava e berrava conosco até que um de nossos pais aparecesse para saber o que estava acontecendo. Em geral, era minha mãe, mas daquela vez foi meu pai. Ninguém gostava muito do sr. Bernhauser, mas meu pai era particularmente contra o sujeito porque ficava com todos os brinquedos e bolas que por ventura aterrissassem em seu quintal. Então lá esta o sr. Bernhauser, berrando que caíssemos fora de sua árvore, e meu pai perguntou qual era o problema. O vizinho inspirou fundo e desandou a soltar uma série de invectivas sobre crianças ladras, infratores de regras, gatunos de frutas e monstros em geral. Imagino que papai estava de saco cheio, pois a próxima coisa que fez foi gritar com o sr. Bernhauser e dizer-lhe que era melhor que morresse. O vizinho parou de gritar, olhou para meu pai, ficou vermelho, depois púrpura, pôs as mãos no peito, ficou cinza, dobrou-se e caiu lentamente no chão. Achei que meu pai fosse Deus. Que ele pudesse gritar com um velho miserável e fazê-lo morrer no ato estava além da minha compreensão.''
(Fragmento de ''Achei Que Meu Pai Fosse Deus'')





